Mais dinheiro para educação não significa maior qualidade

O Inep divulgou um conjunto de tabelas que trata do investimento público em educação, tendo como base o ano de 2008. Em termos comparativos com o PIB, o valor ficou em 4,7%. Mas essa não é a parte interessante do estudo – já que houve pouca alteração em relação a 2007. O que chama atenção na análise dos dados é o fato de que a razão entre investimento em educação superior e investimento em educação básica por estudante está em franca redução, como evidencia o gráfico que elaborei abaixo.

A razão sai de 11,1 em 2000 para 5,6 em 2008, graças ao maior crescimento do investimento em educação básica em relação ao investimento em educação superior – tal razão é inferior a 3 na maioria dos países desenvolvidos. O motivo para isso pode ser depositado na aprovação do FUNDEB (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica), que vem repassando mais dinheiro público para a educação básica.

O crescimento anual do investimento em educação básica vem sendo superior a 17% desde 2006, enquanto que na educação superior o número é de 4% a.a. Isso significa que, enfim, o Estado brasileiro está dando atenção para uma grave discrepância do sistema de ensino brasileiro: privilegiar o ensino superior em detrimento dos demais níveis de ensino.

Há, é claro, muito por fazer nesse campo. O gasto anual por aluno nas universidades estatais é, por exemplo, de R$ 14.763. Em um curso de quatro anos, retira-se cerca de R$ 60 mil, em média, dos cofres públicos para formar um profissional de nível superior. Tal gasto é pouco justificado na maioria dos cursos de graduação, dado a baixa externalidade positiva que advém do mesmo. O que se sabe, pelos estudos e pesquisas na área de educação, é que tal gasto público é privadamente apropriado pelo indivíduo, de modo que é de difícil mensuração o retorno social desse dinheiro.

No campo da educação básica, cuja externalidade para a sociedade é muito mais elevada, é preciso aumentar sim o investimento público – ainda que muitos especialistas considerem 4,7% do PIB como bastante razoável. Entretanto, como já disse repetidas vezes nesse espaço, não basta dar mais dinheiro, é preciso melhorar a gestão do mesmo. Colocar mais verbas públicas em um sistema que peca em meritocracia e gestão adequadas é dar um tiro no pé, às custas do contribuinte. O crescimento do investimento público experimentado nos últimos anos foi mal feito porque não foi vinculado a aumento de qualidade (melhor formação do professor, dos diretores, aumento dos índices de aprendizagem, redução da evasão escolar, aumento na distribuição de merenda escolar, aumento na carga horária de estudos etc.).

Enquanto não mudarmos isso, falar em mais dinheiro para a educação é atender apenas aos interesses dos sindicatos da área, sem nenhuma contrapartida em termos de qualidade. Espero que o novo governo se preocupe com essa questão…

OBS: Para ver o conjunto de tabelas do INEP basta clicar aqui.

Greve de professores em São Paulo

Uma parte dos professores da rede estadual de São Paulo aderiu à greve, como forma de pressionar o governo a ceder às suas reivindicações. Estas, por suposto, são as de sempre: reajuste salarial (nesse caso, imediato de 34,3%), incorporação de todas as gratificações, plano de carreiras e concurso público.

A justificativa é sempre a mesma: professores ganham mal e isso se reflete na qualidade do ensino. Nas palavras de um dos sindicalistas:

“Estamos em greve por tempo indeterminado, até que o governo negocie conosco o atendimento de nossas reivindicações em busca da melhoria da escola pública“.

Depreende-se disso que dar aumento de salários para professores melhora a educação básica pública. A questão já foi discutida aqui e aqui, para quem se interessar.

A questão vai muito além do simples fato de dar aumento de salário para professores, como já discuti n vezes nesse espaço. E foi justamente isso que o governo de SP tentou implantar, sob a gestão do ex-ministro da educação Paulo Renato. Lá foi o primeiro lugar do Brasil a falar em meritocracia na educação. Atrelar bônus a resultados e toda essa discurssão que os sindicalistas não conseguem entender.

Para eles vale o rasgado conceito de isonomia, ou seja, todos os professores tem de ganhar a mesma coisa. Balela pura que só leva a ineficiência…

É uma pena que diante disso quem fica com o resíduo são os alunos…

Para que serve a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres?

Aparentemente para dar explicações toscas referentes às censuras impostas pelo governo petista:

“‘A mulher não pode ser tratada como um produto’. Ana Paula Gonçalves, ouvidora da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, ao explicar por que o Conar foi acionado para censurar o comercial da cerveja Devassa estrelado por Paris Hilton, induzindo o país a acreditar que, em todos os outros anúncios de marcas concorrentes, as mulheres foram tratadas como mulheres.”

Tá, tudo bem: para dar emprego aos companheiros de partido também… :)

Eleições 2010: quem tem medo do Serra?

Lados conhecidos na disputa presidencial, é hora de começar a tocar nas feridas da campanha. Neste post vou escrever sobre a idéia (bizarra) de que o Serra vai mexer no câmbio flexível se eleito for.

Há rumores, apenas isso, aqui e ali, de que em um virtual governo Serra (PSDB do B) o mesmo acabaria modificando essa arquitetura macroeconômica, possivelmente com um relaxamento do câmbio flexível. Isso faz sentido?

Se há rumores, a culpa é do próprio Serra, que vez ou outra, dá pitaco no tema. Diz que a taxa de câmbio está muito apreciada, que isso prejudica as exportações brasileiras e toda aquela celeuma de sempre…

Primeiro que, estudos empíricos têm dado conta de que não há sinais de dutch disease no Brasil, ao menos por enquanto. Outra coisa que acabar com a flexibilidade do câmbio nominal e plotar uma consequente depreciação do mesmo tem impacto na inflação e pode não funcionar para depreciar a taxa de câmbio real, aquela que importa para a competitividade das exportações.

Explicando melhor: imagine que Serra tome posse em 1° de janeiro de 2011 e logo em seguida determine a depreciação da taxa de câmbio nominal. Suponha, por hipótese, que a mesma saia dos atuais 1,80 R$/US$ e vá para 2,60 R$/US$ – algo possível de ser feito. Esse delta de depreciação terá impacto na inflação doméstica e consequentemente terá impacto apreciativo na taxa de câmbio real, de modo que a requisitada desvalorização dessa última não é garantida. O resíduo, claro, é uma inflação maior.

Agora, pergunto ao leitor amigo: um governo tucano admitiria maior inflação? Eu, honestamente, acho toda essa questão um pouco terrorista demais. Mas há inocência para tudo…

Aos poucos vou escrevendo posts desmistificando a guerrilha petista…

Escassez de engenheiros: realmente um risco?

Essa vai para meus amigos engenheiros. O IPEA realizou um “estudo” sobre a falta de engenheiros no Brasil. A conclusão é aquela sabida por todos: não há escassez, o problema é a tal da “migração ocupacional”. Isto é, se os engenheiros trabalhassem como engenheiros, não haveria porque ficar discutindo “apagão” de mão-de-obra qualificada nessa área do conhecimento.

Como economista, vejo a questão do ponto de vista dos incentivos. Se um engenheiro mecânico, por exemplo, atua na área comercial de uma empresa de geração de energia elétrica é porque isto se mostrou mais atraente para ele. Afinal, em um mercado de trabalho livre e cada vez mais generalista, se formar em determinado curso não implica necessariamente na atuação profissional nessa área específica.

E a tal migração para a área de origem (mecânica) não é tão simples assim. Passados anos de atuação em uma área completamente distinta da inicial, nada garante que a melhoria de salários e/ou status profissionais irá forçar a migração espontânea. Isso pode, a princípio, fazer com que o desvio de função seja atenuado no futuro, com a valorização da carreira em si. Mas a migração dos atuais engenheiros mecânicos, por exemplo, é muito pouco garantida.

O trabalho do IPEA enfatiza justamente a redução desse “desvio de função” no futuro, de modo que oferta e demanda de engenheiros se equilibre. Nesse sentido, não haveria preocupação com a escassez desse profissional, já que a melhoria das oportunidades nas atividades-fins garantiria um balanço adequado.

E, então, vocês concordam com isso? A melhoria das perspectivas nos respectivos campos de atuação dos engenheiros evitaria a migração para outras áreas completamente distintas?

Eu, particularmente, acho que não. Mesmo com a melhoria de salários e status nas áreas-fins da engenharia, nada garante que a migração para setores completamente distintos não irá continuar ocorrendo. Isto porque, o curso de engenharia tem sido muito valorizado no mercado. Tal profissional é visto com grande simpatia pela maioria das grandes empresas, o que força um natural aumento de status e salário.

Nesse sentido, para que não haja desvio de função no futuro, a demanda (empresários que precisam de engenheiros trabalhando com engenharia) terá de pagar um delta elevado de salário para manter tais profissionais em suas respectivas áreas de atuação. Isso é uma boa notícia para quem está em uma faculdade de engenharia… :)

Para ler a pesquisa do IPEA clique aqui e aqui.

Homens providenciais versus Instituições

Mais um artigo no IMIL aqui. Do que precisamos: de um Messias ou de Instituições que funcionem? Precisamos de um Lula ou de um Estado? O Estado é Lula ou o Estado pode funcionar sem ele?

“Como diria Hayek, o estado de direito é aquele capaz de funcionar de modo eficaz sem a necessidade de “homens providenciais”. Os próprios indivíduos forçam uma mudança institucional, reduzindo custos de transação. É claro que um Estado forte é importante para que um país se torne desenvolvido. Nenhuma nação do mundo chegou a tal categoria com um Estado fraco. A questão, entretanto, é a confusão que se faz rotineiramente entre Estado forte e acúmulo de funções”.

Bom Carnival a todos!

PT já tem esboço de plano de governo…

Mais um “Plano Nacional de Desenvolvimento” vem ai: é o que pretende ser o plano de governo da ministra Dilma. A idéia é clara: fortalecer o Estado, ampliando suas funções e intervindo fortemente na atividade econômica.

Essa eleição promete! :)

Artigo sobre Universidades Privadas ainda repercute…

O artigo “Por que as universidades privadas são, na média, de qualidade questionável?” tem repercutido bastante. Mesmo passado quase um mês que o publiquei no IMIL, ainda recebo e-mails e comentários sobre o mesmo.

Eu sinceramente não esperava por isso. Apesar da tese central do artigo ser bastante simples – a gratuidade nas universidades estatais ser causa da má qualidade das universidades privadas -, não esperava que o mesmo fosse muito lido porque ele é bastante longo. O original dele continha dez páginas. A versão final ficou com cinco. Ou seja, muita coisa para se esperar uma leitura atenta do mesmo.

Nesse aspecto em particular, muito me surpreendeu o fato de que os elogios superavitaram as críticas. E estas, em sua grande maioria, foram bastante superficiais. Muito poucas mereceram algum tipo de réplica. Por exemplo, observe o comentário abaixo, disponibilizado no portal “Opinião e Notícia”:

“‘Os alunos mais bem preparados,ocupam tais vagas’. Não. Por uma questão política, a educação escolar deveria ser estabelecida no contexto de um plano nacional de educação. Todos os alunos por opção seriam bem preparados,ocupamdo as vagas disponibilizadas pelo Ministério da Educação,num sistema universal de distribuição de vagas. que acompanharia o aluno desde a matrícula inicial até a formação gradual. Formação é uma questão estratérgica da Nação e opção do indivídou. Todas as escolas disponibilizaria as vagas para um sistema universal de distribuição de vagas. O MEC com a sua competência atribuíria as vagas aos alunos. ‘Todos tem direito a educação’”. (comentário copiado conforme o original, inclusive com erros ortográficos e gramaticais)

O autor do comentário provavelmente não leu o meu artigo até o final. Isto porque, na conclusão do mesmo deixo como uma das opções para resolver o problema a estatização completa do sistema. Não que considere essa opção a mais eficiente (discussão que preferi deixar para outro artigo), mas a deixei em aberto. O interessante é observar a carga ideológica do comentário. Não há nenhuma manifestação de cunho técnico. O que existe no comentário é apenas retórica, com apelo até mesmo a bordões.

As críticas a meus artigos sobre educação possuem (quase) sempre esse viés. Há uma espécie de “rancor ideológico”, típico dos panfletos sindicalistas da área educacional. Como já me manifestei em outras ocasiões me recuso a rebater críticas sem o mínimo de conhecimento técnico sobre o assunto em questão (nesse caso, sobre educação superior).

O tema do artigo é apaixonante, confesso. O estudo já há alguns anos. E talvez por isso me entristece não receber críticas mais fundamentadas. Os que, por exemplo, defendem a estatização completa do sistema (da pré-escola ao pós-doc) poderiam fazer uma pesquisa sobre a matriz de custo de tal escolha (coisa que já existe na base de dados do IPEA, por exemplo). Qual seria impacto dessa escolha hoje, seja em termos de finanças públicas, seja na operacionalização do sistema. Enfim, poderia haver algum tipo de argumentação fora da tradicional discussão ideológica.

Toda a minha argumentação é feita, claro, partindo do ponto de vista econômico. Estou atento a fatores como custos, incentivos e eficiência do sistema. Alguns criticam essa abordagem por não considerá-la humana, por ter um viés privatista e outras coisas do tipo. Mas não apresentam alternativa plausível. Gostaria de ler algum pedagogo ou cientista social que tivesse uma abordagem consistente sobre educação. Uma tese que não fosse viesada. Toda a minha argumentação tem como único objetivo a melhoria do sistema educacional, seja o básico ou o superior, com os menores custos possíveis. Se há discordância dessa abordagem “tecnicista” para alguns, que se mostrem ARGUMENTOS (no sentido aristotélico mesmo) contrários…

Mas, apesar de tudo, fico feliz que haja cada vez mais interesse nesse tema…

Sem medo do passado

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso elevou o tom das críticas ao atual governo. Em artigo publicado ontem no jornal O GLOBO, o czar tucano descreveu com grandes detalhes as conquistas da sua administração e condenou, de forma bastante categórica, os “impulsos toscos e perigosos” do presidente petista.

Além disso, alertou para a estratégia de guerrilha que provavelmente será utilizada pelo PT nas eleições. O trecho abaixo do artigo é bastante interessante:

“Na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi “neoliberal” – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas, os dados, ora os dados… O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas, Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal. Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões e, junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado”.

Não há dúvidas de que o PT repetirá a estratégia de 2006, no qual foi bem-sucedido. Condenar e ridicularizar os dois governos FHC fazem parte do mote petista. E, claro, há na sociedade brasileira grande repulsa e aversão aquele período. Culpa do próprio PSDB que não soube defender seu quinhão de forma convincente, como venho dizendo aqui há um bom tempo.

Acho louvável que o próprio FHC, assim como todos os demais tucanos, venha a público defender aquele período. Não há justificativa para que o PT fique com os louros de todo o arcabouço institucional, econômico e social criado pelo governo tucano.

Para ler o artigo completo de FH clique aqui.

Terrorismo eleitoral petista…

O ex-ministro Paulo Renato toca na ferida: os petistas irão jogar sujo nessa eleição para conseguirem se manter no poder. Você, leitor amigo, tem dúvidas?

As revelações do ENEM 2009

O INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) divulgou uma nota à imprensa titulada “Para entender a nota do Enem”. Nesta há a distribuição percentual das notas dos estudantes em quatro áreas do conhecimento (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas) mais redação. Os resultados são bastante interessantes.

Em matemática, por exemplo, em uma escala que vai de 345,9 a 985,1, menos de 5% dos alunos ficaram com notas maiores do que 700. Já em Linguagens, em uma escala de 224,3 a 835,6, apenas 2,1% dos alunos tiveram nota maior do que 700…

Os dados apontam para uma constatação acaciana: não conseguimos ensinar português nem matemática para nossos alunos. Isolo estas disciplinas por considerá-las as mais importantes na formação de uma criança. São matérias que servem de pré-requisito para todas as demais áreas do conhecimento. Se o aluno possui uma boa formação em matemática e português é bem mais provável que consiga obter êxito em todas as outras disciplinas. Ensinar nossas crianças a ler, escrever e fazer contas é algo que deve ser perseguido com afinco pelo sistema educacional brasileiro.

O governo Lula avançou muito pouco em matéria de educação. A criação do IDEB, a aprovação do FUNDEB e a criação de um Programa Nacional de Formação de Professores são pouca coisa para quem esteve 7 anos no poder. A realidade que o ENEM aponta hoje continuará sendo vista daqui a 10 anos se nada for feito. Continuaremos formando jovens que não dominam línguas e matemática. Por consequência possuem dificuldades em entender qualquer outra coisa. Até quando enfrentaremos isso?

Para ler a matéria do INEP clique aqui.

A opção por custos mais altos

Existe atualmente um paradoxo irremediável entre crescimento econômico e meio ambiente. Não são poucos aqueles que identificam a impossibilidade de gerar desenvolvimento econômico sem afetar os recursos naturais de um país. De fato, mesmo o desenvolvimento dito sustentável gera problemas, ainda que menores, ambientais. No Brasil atual, o governo petista utilizou de um subterfúgio para driblar tal dilema e expandiu a matriz energética por meio de termelétricas. A pergunta que nos cabe fazer, entretanto, é se essa opção é a mais eficiente, seja em termos de custo ou impacto ambiental.

Há entre os ambientalistas uma grande rejeição à construção de usinas hidrelétricas com reservatórios. Isto porque, para viabilização das mesmas, é preciso que cidades inteiras sejam alagadas, gerando impactos tanto para as populações envolvidas quanto para a fauna e flora locais. Não é por outro motivo que os principais projetos hidrelétricos atuais (Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, em Rondônia e Belo Monte, no rio Xingu, Pará) não possuam reservatórios, sendo movidos apenas pelo curso dos rios onde foram implementados.

Isso, entretanto, gera uma externalidade negativa bastante interessante. A hidrologia de um rio não é linear durante o período de um ano. Ela é composta por um período seco, onde os índices pluviométricos são mais escassos, e por um período úmido, onde tais índices são mais elevados. Tal distribuição entre períodos secos e úmidos gera o chamado risco hidrológico, que afeta diretamente a geração de energia e deve ser cuidadosamente administrado.

Em usinas hidrelétricas com reservatórios, tal risco é administrado internamente. Ou seja, nos períodos úmidos acumula-se água nos reservatórios para que a mesma seja utilizada nos períodos secos. Nesse contexto, é possível distribuir a geração de uma usina de forma mais linear ao longo de um período de tempo. Já em usinas hidrelétricas a fio d´água (sem reservatórios) tal risco deve ser administrado de forma externa à usina.

Como a mesma não possui reservatórios, em períodos secos ela deve reduzir (ou até mesmo interromper) a geração de energia. De modo a atender a demanda de energia, entretanto, é preciso que existam fontes complementares de geração. No Brasil atual essa complementação é feita através de usinas termelétricas, que utilizam como insumo carvão, derivados de petróleo, gás etc.

Nesse contexto, em termos de custo, a geração hidraúlica é muito mais eficiente do que a geração térmica. Isto porque, o insumo daquela é muito mais barato do que o insumo desta. Não há muitas dúvidas, portanto, de que a opção brasileira pós-racionamento é por uma estrutura de custos muito mais elevada, se continuarmos dando preferência às usinas térmicas e hidrelétricas a fio d´água na expansão da oferta.

Mesmo em relação ao impacto ambiental não fica evidente se fizemos uma escolha correta. Isto porque, a expansão via térmicas, além de ser mais custosa, polui nossa matriz energética, pela emissão de gás carbônico para a atmosfera. Desse modo, as únicas justificativas políticas razoáveis para a expansão via térmicas são o menor período de construção e a existência de um impacto ambiental ex-post.

E não é por outros motivos que tal expansão foi feita através da construção de usinas termelétricas e hidrelétricas sem reservatórios. A questão política foi primordial. Isto porque, não se justifica, seja via custos ou impacto ambiental, o atual desenho da expansão energética brasileira. Tal opção é nitidamente por maiores custos e, possivelmente, por maior agressão ao meio ambiente no horizonte futuro.

Lula fica doente e ao invés de ir para o SUS…

Quando li sobre a “crise” hipertensiva que o nosso grande presida teve pensei cá com meus botões: por que o filho do Brasil não foi para um hospital estatal?

Ora, caro leitor, é até incoerente o presidente da República recorrer a um hospital privado para tratar-se, como fez nosso digníssimo comandante-em-chefe! É atestar que ele não tem a menor preocupação em reestruturar o Sistema Único de Saúde (SUS) e que seus discursos sobre esse assunto não passam de bravata barata e ridícula.

Mas se isso já é motivo de irritação por parte desse blogueiro, a coisa não pára por ai não! O Reinaldo Azevedo, em seu blog, joga no ventilador a incoerência lulística publicando o que ele teria dito em Pernambuco, dias antes de passar mal de hipertensão:

“Eu (não?) quero ser o primeiro paciente dessa UPA aqui. Eu tava visitando a UPA, e eu quero dizer que ela tá tão bem-organizada, ela tá tão bem-estruturada QUE DÁ ATÉ VONTADE DE A GENTE FICAR DOENTE PARA SER ATENDIDO AQUI. Deus queira que nenhum de vocês, pelo menos hoje, precise ser atendido pela UPA, que vai começar a funcionar amanhã. Eu acho que aquela muiezinha que sofreu um desmaio já tá lá na UPA. Então, já começou a funcionar”.

E então leitor, esse cara merece mesmo o seu voto?

Nota Fiscal eletrônica e inflação

Em um almoço nessa semana com um grande amigo dos tempos de Telemar, foi abordado um tema no mínimo curioso, que me fez pensar por alguns instantes. Meu amigo trabalha atualmente em uma distribuidora de alimentos e está envolvido no processo de migração para a Nota Fiscal Eletrônica (NFe), um novo instrumento projetado pelo governo federal que visa simplificar a vida dos empresários brasileiros e reduzir a sonegação fiscal.

A questão relevante do almoço sobre esse assunto não foi propriamente a operacionalização do novo sistema, mas sim o impacto do mesmo na, veja você, inflação. Isso mesmo, o leitor não leu errado.

A questão toda é baseada em duas hipóteses: 1) a sonegação é alta no país; 2) o dinheiro sonegado não fica com o empresário, mas é repassado para os preços – reduzindo-os. Dependendo de quão forte forem essas duas hipóteses na economia brasileira e se a NFe conseguir de fato reduzir a sonegação fiscal, é factível imaginar que haverá repasse para os preços, o que acarretará um repique inflacionário.

A idéia é interessante e merece a atenção dos economistas de plantão…

“O filho do Brasil” sofre críticas…

É o que se lê aqui.

Minha opinião sobre isso aqui.

Eleição plebiscitária é o que há… Para o PT, claro!

Em “Viva o pós-lulismo!”, comentei sobre o fato de que uma eleição plebiscitária neste ano deve ser tudo o que o PT quer (e a oposição NÃO deve querer). O nosso presidente-czar Lula já abriu a primeira reunião ministerial do ano apostando nessa estratégia para levar sua candidata ao planalto em 2011.

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou nesta quinta-feira, na Granja do Torto, a primeira reunião ministerial do ano. No encerramento do encontro, Lula disse aos ministros que pretende fazer uma “campanha eleitoral plebiscitária”, uma comparação de projetos realizados na sua gestão e durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso”.

Eu sinceramente não teria medo de uma eleição desse tipo se duas coisas fossem diferentes no Brasil: a) a população fosse educada; b) a oposição fosse razoável, no mínimo. Como nenhuma dessas duas condições são satisfeitas, tenho receio de que uma eleição plebiscitária acabará levando a ministra Dilma ao poder no próximo mandato.

A oposição brasileira é fraca, diria fraquíssima. Se conseguiram perder em 2006, com todo a lama que havia no governo petista, imaginem agora, com toda essa simpatia que o mundo anda cultivando pelo Brasil?

Ministério da Pesca e Aquicultura: uma refutação aos comentários inocentes.

Há algum tempo atrás, por ter lido em um blog parceiro, escrevi um post bastante irônico sobre a criação por parte do governo Lula do Ministério da Pesca e Aquicultura – o post original pode ser visto aqui.

A ironia presente naquelas poucas palavras gerou um descontentamento muito grande nos partidários do governo Lula, como, sinceramente, já era esperado. Isto porque, o brasileiro médio é totalmente a favor do dirigismo estatal, da intervenção sem limites, dentre outras coisas…

Depois de tanto tempo escrevendo neste e em outros espaços eu aprendi que na internet a democracia é apenas “um retrato na parede”, como diria Drummond. As pessoas concordam ou discordam de determinada opinião e ponto. Poucos são aqueles que possuem a mente aberta, dispondo-se a ouvir a outra parte e assim gerar um debate construtivo sobre determinado assunto.

Por minha parte acredito que essa é a única maneira de aprender. O processo de aprendizado só é válido quando se confrontam opiniões e certezas sobre determinadas coisas. E é justamente por isso que, mesmo sob o ataque às vezes irracional de determinados comentaristas, mantenho e manterei algum espaço que sirva para esse tipo de debate.

A ironia presente no post é justamente um desabafo por tudo o que tenho visto do governo Lula. Como economista tenho a exata noção dos custos e incentivos envolvidos no processo de escolha, seja ela pública ou privada. Nesse contexto, não posso ignorar o fato óbvio que não é a simples criação de um ministério que gerará a mudança de paradigma em um setor específico. Sobre esse último aspecto, o comentário do engenheiro de Pesca da SEPAq (Secretaria de Estado de Pesca e Aquicultura do Estado do Pará) é esclarecedor:

“Acho que o problema principal está o fato de, esse ministério está atolado de políticos incompetentes, pessoas leigas no assunto e simplesmente ainda não dispor de quadro técnico especializado para deliberar e operacionalizar ações que realmente deveriam ser prioritárias para a categoria”.

É justamente o que apontou o engenheiro de pesca que me preocupou quando soube da notícia da criação de mais um ministério. Os exemplos de aparelhamento do Estado por parte do PT são muitos e devem, sim, ser tratados tendo em vista a noção de custo e benefício. Em outros termos, a pergunta que deve ser feita é se a criação de mais um ministério, com apadrinhados políticos, terá algum retorno sobre a atividade pesqueira.

Esse aspecto é, sem sombras de dúvida, de grande relevância para a análise. O debate sério e qualificado simplesmente não pode ignorar esse questionamento. E foi justamente isso que fizeram os comentaristas ao criticarem apaixonada e inocentemente o meu post. Seguiram o canto da sereia sem nem ao menos questionar os motivos atrelados à criação de mais um ministério.

A defesa do intervencionismo e dirigismo estatal é sempre cheia de retórica e paixão. Quase nunca vem acompanhada de argumentos sérios e/ou relevantes…

Por fim, cabe ressaltar que escrevo este post para dar cabo a tamanha inocência intelectual. Os que se motivarem a elaborar argumentos paupáveis, como sempre, são bem vindos a este espaço.

Uma oportunidade para entrar na bolsa…

É o que Cristiano M. Costa identifica aqui.

Deficit externo deve ser preocupação?

O crescimento da economia brasileira em 2010 deve gerar ao menos uma externalidade negativa: o aumento do deficit em conta corrente. Isto porque, com o aumento da renda, provocada pelo incremento da produção de bens/serviços, gera-se aumento das importações, reduzindo o saldo na balança comercial. Além disso, o maior fluxo de investimentos estrangeiros verificado nos últimos anos tem gerado um aumento considerável na remessa de lucros e dividendos para o exterior, o que faz aumentar o deficit em conta corrente.

A questão que segue é a seguinte: isso é preocupante? A resposta mais lógica é que sim, porque para financiar esse deficit é preciso contar com o contínuo fluxo de capitais estrangeiros para o Brasil. Ou seja, ficamos na dependência de um cenário externo bom e baixa aversão a risco, de modo que os investidores continuem mandando dólares para cá.

Uma reversão de expectativas pode dificultar o financiamento desse deficit e gerar uma imediata depreciação cambial. Isto, por sua vez, gera pressão inflacionária sobre a economia, o que aciona a política monetária e freia o crescimento econômico. Desse modo, sim, o deficit externo deve ser uma preocupação para os próximos anos.

Os que, pelo contrário, não veem tal questão como preocupante estão acreditando em uma continuação da atração de capitais por parte do Brasil. E isso, claro, depende de uma continuação da recuperação da economia mundial. Não digo que esse não seja um cenário factível para os próximos anos. A questão mais importante é a mesma que já toquei em artigo anterior (disponível aqui): por mais que tenhamos reduzido nossa vulnerabilidade externa conjuntural, ainda temos uma pesada vulnerabilidade externa estrutural.

E isso é representado justamente por deficits estruturais em conta corrente e a atratividade que a conta financeira possui. Não é outra coisa que caracteriza um país subdesenvolvido. Se quisessemos abandonar esse modelo de crescimento com poupança externa (que está ai não é de hoje), deveríamos promover reformas estruturais com o objetivo de aumentar os mecanismos de crédito, de modo a financiar o investimento de que precisamos.

Por fim, é preciso salientar que o deficit em conta corrente é sim preocupante. A redução da nossa vulnerabilidade externa é conjuntural. Continuamos expostos a reveses na economia mundial. Seria interessante que os analistas de plantão se demonstrassem preocupados com essa questão.

Racismo na UERJ

Isso é uma vergonha!

Os muros do Teatro Odylo Costa Filho, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), apareceram pichados com exortações racistas e símbolos nazistas na manhã desta segunda-feira. A Uerj foi a primeira universidade pública do país a adotar o sistema de cotas, em 2003. A universidade informou que está investigando para descobrir a autoria das pichações, que devem ser apagadas em, no máximo, dois dias.

racismo

A CF de 88 é muito clara a esse respeito: “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”.

O cidadão que fez isso não merece a água que bebe. Para mim é um animal, um delinquente, um merda, que deveria estar atrás das grades!

Economia, política, educação e notas da rotina…