Meu amigo Afonso é um homem sábio. Não pelos diplomas acadêmicos, que são vários, mas pelo apurado bom senso. Gosto de conversar com ele quando estou triste com a política brasileira. Dia desses, mais precisamente após a absolvição do Renan, liguei para ele e marquei um chopp gelado. Queria “afogar as mágoas”, por tanta falcatrua envolvendo a “República de Bananas”.
Enquanto soltava o verbo em cima dos senadores corruptos, Afonso ouvia com a calma de um budista. Agia como um psicólogo, que deixa o paciente externalizar seus traumas. Findada minha lamúria, Afonso tomou a caneca de chopp na mão esquerda, deu uma senhora golada e soltou a seguinte frase: “a culpa não é dos senadores, a culpa é de todos nós”. Voltou-se para a rua, olhando o ir e vir dos transeuntes. Eu me redimi em minha ignorância.
Meu amigo Afonso tinha razão: a culpa é nossa, que elegemos raposas para cuidar do galinheiro (ops Parlamento). Quando votamos, de dois em dois anos, estamos escolhendo os homens que decidirão por nós o destino do país. Nada mais justo, então, que escolhamos um homem ou uma mulher com caráter e honra impecáveis! Mas não. Votamos no Dornelles, no Maluf, no Garotinho, no Fernando Collor de Melo etc. Pessoas comprovadamente corruptas.
Mas como escolher? É difícil, claro. As pessoas mentem o tempo todo, escondem os podres. Entretanto, se você parar para analisar, não dá para manter uma mentira para o resto da vida. Uma hora ou outra, o corrupto cai na arapuca. Para que isso aconteça devem existir duas condições. A primeira é que as instituições estejam funcionando. A polícia federal, o ministério público, a procuradoria geral etc. Esse pessoal tem que trabalhar! Colocar os carros na rua e investigar os maus políticos. Além disso, o judiciário (aquele cancro maligno que o Brasil tem no pâncreas) deve colocar na cadeia os comprovadamente corruptos.
Não pára por ai. Como eu disse, há de existir uma segunda condição: a reprovação popular. Blacklist para os comprovadamente ladrões! O Collor deveria estar em algum cemitério, enterrado por todo o esquema que comandou (“pena de morte para corrupção”). Mas ao contrário disso, foi reeleito, imagine você, para o Senado Federal (agora está de licença – seis meses, diga-se). Quem é o culpado? O Collor? Claro que não! O culpado é o povo, que o elegeu. Ele só fez o seu papel: se candidatou, gastou rios de dinheiro, subiu ao palanque, falou meia dúzia de palavras retóricas e acabou convencendo os “bestializados” (para usar a expressão dos sociólogos…).
Como diz o meu amigo Afonso, a culpa é de quem elege. Os que se elegem só fazem o seu papel, que é da natureza humana (da-lhe Maquiavel!). O Brasil, as instituições e o povo brasileiros, devem tomar uma decisão simples: aumentar o custo de se corromper. Somente assim um político pensará duas vezes antes de usar caixa dois, desviar recursos públicos, ganhar na loteria n vezes. Isto porque, ele sabe que se for pego na arapuca (das instituições e do povo) ele será punido, será rechaçado publicamente.
Mudar as instituições formais (operar o tumor do judiciário, por exemplo) é um processo lento e gradual. Entretanto, mais difícil do que isso, é mudar as instituições informais, os costumes e crenças de um povo. Dentre essas, a que vejo como primordial para modificar o atual sistema político brasileiro é a mudança da postura do cidadão frente ao seu voto. Ele, e somente ele, pode cassar os Renans e Malufs. O voto deve eleger os homens de bem, os sábios, os comprovadamente incorruptíveis. O voto deve condenar os trapaceiros, os mentirosos e os delinquentes. Votar é a única forma de mudar “tudo isso que está ai”.
Assim sendo, se você ficou indignado com o fato de o senador Renan ter sido absolvido lembre-se dessa indignação nas próximas eleições. Em 2008 elegeremos prefeitos e vereadores. Pense na sua revolta, reflita sobre o seu papel enquanto cidadão. É melhor fazer isso durante uma eleição do que assistir inerte aos próximos quatro anos, sendo ridicularizado pelos ladrões no poder. Afinal, a culpa é nossa! Sempre nossa!