Há muito a fazer

2007
09.23

Municípios com mais de 96% de alfabetização recebem selo do MEC

RIO – O Ministério da Educação (MEC) está concedendo o selo Município Livre de Analfabetismo aos municípios que atingirem mais de 96% de alfabetização em suas redes. Sessenta e quatro municípios brasileiros receberam o selo ( clique aqui e confira a lista), em junho. São João do Oeste, município de cerca de 5.700 habitantes de Santa Catarina, é o que apresenta menor índice de analfabetismo, apenas 0,91%. A maioria das cidades beneficiadas está localizada na Região Sul, sendo o Rio Grande do Sul o estado que mais tem municípios praticamente livres do analfabetismo, são 40 de 64. No Estado de São Paulo, apenas três municípios receberam o selo: Águas de São Pedro (com taxa de analfabetismo de 2,94%), São Caetano (com taxa de 2,99%), e Santos (com taxa de 3,56%). No Rio de Janeiro apenas Niterói (3,55%) e Nilópolis (3,76%) entraram na lista.

A lista divulgada pelo MEC demonstra que há muito o que se fazer no Brasil em matéria de educação. Na notícia de O GLOBO acima, por exemplo, nota-se que uma quantidade ínfima de municípios foi considerada ‘livre do analfabestismo’, em um universo de mais de 5.000 municípios brasileiros – clique nesse texto para ter acesso a planilha com a relação completa dos 64 contemplados.

Entretanto, na minha modesta opinião, nem mesmo esses 64 contemplados podem se dar ao luxo de ostentarem esse selo do MEC. Isto porque, a linha que divide analfabetos e não analfabetos é muito tênue no Brasil. Para ser considerado analfabeto completo a pessoa não deve saber ler nem escrever (nem o próprio nome). Nessa categoria esta cerca de 13% da população brasileira segundo o último censo do IBGE. Entretanto, mesmo entre aqueles que conseguem ler e escrever há muito o que se discutir se estes são ou não analfabetos.

Sobre isso, a UNESCO implantou o conceito de ‘alfabetismo funcional’, ou seja, “a capacidade que o indivíduo tem de utilizar a leitura e a escrita para responder às demandas do contexto social em que vive e usar essas habilidades para continuar aprendendo ao longo da vida” (Relatório INAF, 2005). Estipulou-se assim – e o IBGE adotou tal conceito aqui no Brasil – que seria considerado analfabeto funcional o indivíduo com menos de 4 anos de estudo. Mesmo assim, há os que discordam de que o brasileiro médio (a taxa de escolaridade média da população brasileira é de 7 anos) seja plenamente alfabetizado.

Dessa discordância surgiram quatro diferentes critérios para classificar a população estudada: analfabetos, alfabetizados em nível rudimentar, alfabetizados em nível básico e alfabetizados em nível pleno (para verificar as habilidades de cada grupo basta clicar no relatório do INAF com link disponível acima). Para o Instituto Paulo Montenegro, apenas 26% da população brasileira se enquadra na última categoria, alfabetizados plenos.

Assim sendo, não vejo como comemorar o fato de a minha cidade, Niterói, estar entre os contemplados com tal selo. Isto porque, na minha modestíssima opinião, há muito o que se fazer em termos de educação no país. Isso é mais um argumento contra aqueles que acham que o Brasil não dá certo, que aqui só tem corrupto e essas coisas pessimistas que se ouvem pelas esquinas do país. Claro, com mais de 70% da população sem o título de plenamente alfabetizados como se pode ter um país civilizado?

É preciso continuar trabalhando. O Brasil já evoluiu bastante nos últimos cinquenta anos, mas precisa avançar muito mais. Temos o talento que o mundo moderno cobra, temos criatividade para lidar com os problemas de escassez, mas nos falta educação. Quando alcançarmos níveis satisfatórios de alfabetização plena ninguém segura este país!

Boa semana a todos!

Your Reply