Comprem dólar e façam suas apostas!

2008
03.17

A composição de uma carteira por um investidor é algo extremamente complexo, pois envolve dois aspectos pouco estimáveis: risco e incerteza. Justamente por isso, o primeiro sinal de uma crise de confiança é justamente o aumento da aversão a risco – como por exemplo o aumento das realizações no mercado de ações. Em tempos de bonança, ao contrário, com a economia mundial crescendo a um ritmo intenso, os bancos tendem a emprestar mais e avaliar menos. É como o pai que, ao ver mais dinheiro entrando, acaba aumentando proporcionalmente a mesada do filho, sem pensar nas consequências trágicas dessa atitude no futuro.

A próxima crise financeira é justamente isso. Os “agentes racionais” (para usar um jargão mais teórico) parece que ainda não aprenderam a calcular riscos de forma confiável. Mesmo que cada banco de investimento tenha mais de uma centena de analistas, com MBA nisso e mestrado naquilo, riscos não são balizados o suficiente para que a economia mundial siga uma trajetória linear de crescimento, sem os já conhecidos ciclos de expansão e recessão.

Dito isto, não vou entrar aqui nos pormenores das causas da crise do subprime americano, porque tenho quase certeza de que vocês já estão cansados disso. Prefiro atentar para os mecanismos de contaminação da economia brasileira, que ou os jornalistas econômicos não sabem, ou preferem esconder. Uma crise externa, como é conhecida, afeta diretamente a confiança dos investidores internacionais – aqueles mesmos, que os “pterodoxos” chamam de especuladores, “donos do capital” entre outros termos termos. Com a confiança abalada, esses agentes tendem a recompor suas carteiras, trocando ativos de maior risco por ativos de menor risco. Em míudos, troca-se ativos em países suspeitos por ativos em países quase insuspeitos (porque não existem insuspeitos por completo).

O que essa troca acarreta? Simples: há a famosa “fuga” de capitais dos países suspeitos – ou países subdesenvolvidos, é tudo a mesma coisa. Esses capitais servem, entre outras coisas que não vale mencionar aqui, para manter a taxa de câmbio apreciada. Quando ele sai há uma tendência depreciativa, que pode gerar impacto bastante perverso nos índices de preços. Quando há essa tendência o Banco Central fica temeroso, pois sua principal meta é a estabilidade de preços. Assim, mantem o seu principal instrumento – os juros básicos – sobre alerta, visando conter essa depreciação da taxa de câmbio.

Os canais de transmissão da política monetária são muitos e variados. Além do câmbio, há as expectativas dos agentes, a estrutura a termo da taxa de juros, o crédito etc. Mas no Brasil de hoje, não há dúvidas de que o BACEN mira a taxa de juros com o intuito de atrair capital externo, apreciando a taxa de câmbio e contendo a inflação.

A pergunta que segue é como a economia brasileira irá reagir quando o BACEN aumentar a taxa de juros (dado que isso não está longe de ocorrer)? Uma corrente de economistas diz que esse aumento pouco influenciará a decisão no curto prazo de consumo ou de investimento dos agentes, pelo fato de que a taxa de juros para o consumidor é extremamente mais alta do que a SELIC e que o investimento produtivo se baseia em outras referências (TJLP, mercado de ações etc.). Entretanto, como observou Keynes, um aumento de juros pode afetar as expectativas dos agentes, que ao prescintirem uma retração da demanda agregada no futuro, podem antecipar (e até mesmo ampliar) essa tendência.

Em outras palavras, um aumento de SELIC não é neutro, do ponto de vista produtivo. O ânimo do empresário brasileiro, já assolado por uma carga tributária confusa e ampliada, reagiará sim a mais essa dose de pessimismo. E mesmo que a política monetária tenda a ser neutra no longo prazo, afetando apenas os preços, no curto prazo há um mecanismo de causalidade entre demanda agregada e juros. O BACEN sabe disso (pois seu modelo econométrico incorpora o hiato do produto como variável a ser observável) e já sinaliza um resfriamento de demanda para as próximas reuniões, que poderá impactar o vangloriado “crescimento sustentado” do presidente Lula.

Para finalizar, cito apenas mais um dado para corroborar a tese da desvalorização iminente: o saldo das transações correntes foi negativo em janeiro (US$ – 4,2 bilhões)! E ainda não há fuga de capitais em curso – muito pelo contrário. O que há é que a importação vem crescendo mais do que a exportação, reduzindo o saldo da balança comercial já há algum tempo. Quando os capitais estrangeiros sairem do Brasil graças a aversão ao risco, essa tendência se intensificará e cabe a pergunta: as reservas do BACEN darão conta? Comprem dólar e façam suas apostas!

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