O estudante de economia em escolas heterodoxas
É dura a vida do estudante de economia de uma escola heterodoxa. Seus anos de graduação são recheados com centenas de aulas críticas à teoria neoclássica, o mainstream do pensamento econômico. Exposições das mais bem fundamentadas sobre o quão irreais são as premissas utilizadas por essa escola. O resultado dessa overdose crítica é que a maioria dos iniciados na ciência acaba ela própria tornando-se heterodoxa.
Os conceitos e premissas da tradição neoclássica são todos eles veementemente refutados pelos professores das escolas heterodoxas logo nos primeiros períodos da graduação. Conceitos como equilíbrio e racionalidade são postos como irreais e completamente fora de propósito.
O primeiro grande problema da maioria dessas críticas reside na precocidade das mesmas. Isto porque seria muito mais honesto, do ponto de vista intelectual, apresentar o modelo neoclássico de acordo com sua coerência interna e não criticá-lo logo no sumário das aulas. Depois de apresentada a teoria, caso fosse o caso, poderia vir um adendo do tipo “opinião do professor” sobre as suas próprias considerações. Ao contrário disso, o modelo é rejeitado antes de ser conhecido pelos alunos.
Uma segunda observação é quanto ao referencial criticado. Peguemos por exemplo o conceito de equilíbrio, um dos pilares do modelo neoclássico. O professor heterodoxo, quase sempre, toma como ponto de referência o equilíbrio walrasiano, onde trocas comerciais e/ou produção não ocorrem fora do ponto exato de equilíbrio e existe a noção de tendência, segundo a qual toda a economia tende para um ponto único, regido pelas forças de mercado. Com base nessa definição o professor doutor refuta de imediato a idéia de equilíbrio e apresenta alguma alternativa do laboratório heterodoxo.
Os pobres estudantes, ignorantes quanto ao próprio objeto criticado, são muitas vezes levados a refutar algo que não tiveram a chance de conhecer. Como observa o professor Marcos Lisboa, em seu artigo “A miséria da crítica heterodoxa”, “a teoria do equilíbrio geral mostra que o equilíbrio competitivo pode ser indeterminado e instável”. Mas como saber disso se ao estudante de graduação são apresentados apenas manuais introdutórios e severamente críticos? De certo que seria mais honesto apresentar tal conceito de acordo com as pesquisas mais recentes no campo da teoria neoclássica. Caberia ao aluno refletir se existe consistência teórica em tais trabalhos ou não.
Mas a escola heterodoxa não dá espaço para uma apresentação imparcial da economia neoclássica. Seus professores já estão há muito na estrada e já são neoricardianas, pós-keynesianos, schumpeterianos, marxistas etc. Eles não têm a menor obrigação para com o ensino de uma teoria que são contrários a jovens iniciados na ciência. Estão mais preocupados com suas pesquisas, com suas ideologias e com os suas próprias escolas de pensamento.
O estudante médio, por uma osmose irresistível, acaba engrossando as fileiras da heterodoxia, taxando a teoria neoclássica de “um velho e caro projeto ortodoxo”. Tosco, mas pura verdade. A maioria dos alunos não se dá ao trabalho de perceber que se a economia tem hoje o status de ciência, muito disso deve-se ao projeto de pesquisa iniciado por Menger, Jevons e o próprio Walras. Mas o canto heterodoxo é sedutor o suficiente para que tal “burocracia acadêmica” seja considerada irrelevante.
Diante de tal quadro, no mínimo sombrio, somente uma pequena minoria sente-se intelectualmente enganada. Como não se sentir se as críticas são sistematicamente apresentadas antes da própria teoria? Se as referências utilizadas para as críticas já foram abandonadas há tempos pelo modelo neoclássico? Ou se os manuais utilizados como bibliografia se apresentam quase sempre como severamente críticos? Talvez se esses erros bobos não fossem cometidos não somente a honestidade intelectual seria recuperada como o projeto heterodoxo seria levado mais a sério por tais estudantes.
É justamente essa minoria a mais prejudicada pois caso a heterodoxia não se mostre um caminho acadêmico válido, como recuperar o tempo perdido e aprender a teoria neoclássica? Tal dilema é geralmente resolvido com o estudo solitário de livros e artigos importados e longe de qualquer interpretação alternativa. O custo disso, porém, é enorme. Horas e horas dedicadas a aprender aquilo que já deveria ter sido ensinado dentro de uma faculdade que não se prendesse a picuinhas ideológicas.
outubro 31st, 2008 at 3:27 pm
E aí, Vitor!
Resolvi ler esse teu último post. Primeiro, não consegui ler todo blog e fiquei na dúvida se tu estuda na UFF ou na UFRJ.
Em segundo lugar, falemos sobre o post.
De fato, eu não nutro preconceito contra todos os heterodoxos, porque alguns são bons. Mas, de fato, a grande maioria sofre de certo despreparo e desconhecimento das teorias do mainstream, tornando as suas críticas vazias e infantis. É claro que existe aquela ortodoxia fechada e intransigente. Intolerância nunca é bom. Você pode ser veementemente contra uma corrente teórica, mas isso não significa que vc deva lutar pela extinção da tal corrente.
É uma pena que se tu tens poucos professores ortodoxos ou heterodoxos de boa formação, tu acabe perdendo um pouco na tua formação teórica.
Por um lado, eu acho bom que se tenha algum conhecimento das teorias heterodoxas. Mas é evidente que isso não pode prejudicar sua formação em econometria, por exemplo, o que acontece muito.
Vai estudando por fora e faz o catch-up.
outubro 31st, 2008 at 3:27 pm
Ah, coloco sim o link
outubro 31st, 2008 at 5:00 pm
Basta ir pra chicago, puc, fgv, etc, que os neoliberais não irão “perder” seu tempo estudando o que realmente deveriam: economia.
Escolas heterodoxas são “grátis” e ensinam o que realmente deve ser aprendido, mas se quiser um diploma inútil de economista, basta pagar essas faculdades.
O problema é que tem uns neoliberais que não querem pagar faculdade né.
novembro 1st, 2008 at 1:33 am
[...] Novembro 1, 2008 Posted by claudio in Uncategorized. Tags: pterodoxos, Vitor Wilher trackback Texto do Vitor Wilher. O pensamento dominante na academia (que é a pterodoxia) é muito pouco plural, embora diga o [...]
novembro 1st, 2008 at 6:19 am
Belo texto, Victor. Esse seu último paragrafo é pura verdade. Estou vivendo essa situação atualmente. É muito desmotivante, mas vamos em frente.
Abraços,
dezembro 12th, 2008 at 10:15 am
Concordo, Victor infelizmente os professores não aplicam uma ética que nortei até que ponto suas ideologias seram difundidaspara os alunos e estes acabam sendo influênciados, logo são formados ao invés de economistas críticos, clones defeituosos dos professores.
junho 1st, 2009 at 9:43 am
Pois é Vitor, foi tarde demais para entender que existe uma diferença relevante entre Keynesianismo e marxismo com os liberais, e lembro-me de todas as críticas advindas da professora de macreconomia que era keynesiana fervorosa, sem base e aprofundamento que poderiamos ser incentivados, acabamos por abraçar a teoria keynesiana, meses depois de me formar, descobri que a economia é muito mais que a busca pela “demanda agregada”.
O que VW diz sobre isso: Fico feliz que você tenha descoberto… Muitos alunos se tornam heterodoxos por falta de opção… Afinal, foi a única coisa que viram…
junho 5th, 2009 at 7:03 pm
Se você não consegue discernir o assunto em questão e uma opinião de seu professor então o problema é você e não o professor.
É óbvio que as pessoas tendenciosas, se você tem um professor heterodoxo, é lógico que ele vai tendenciar para esse lado (afinal presume-se que essa seja sua especialidade), se a maioria dos seus professores é heterodoxo, você está na faculdade errada vai pra FGV, lá você vai encontrar o que procura. O ponto é, concordo com você em relação a relevância da teoria neoclássica, mas como você mesmo disse que somos obrigados a refuta-la, pois bem, ela já foi refutada inumeras vezes, ela sem dúvida é e foi de grande importãncia para a econômia, serviu e serve de base para muitos estudos, mas ela por si só é inaplicavel!
O que VW diz sobre isso: Obrigado por sua visita Mauro e por seu comentário. É sempre um prazer ler críticas…
junho 30th, 2009 at 6:39 am
Vítor, concordo como você que os professores tendenciam aos alunos, mas também entendo que escolher uma posição é algo totalmente particular, não acredito que seja possível influenciar a quem não quer ser influenciado estudo na UFRRJ uma faculdade federal como bem sabemos, com professores totalmente heterodoxos estou no quinto periódo entretanto não tenho ainda bem definida posição alguma, entendo os pontos positivos da Teoria neoclássica assim como os pontos positivos dos heterodoxos, e também como ambos possuem falhas em suas teorias, porém todas teorias merecem o seu crédito acredito que não é bom ao aluno ser imposta uma escolha ideológica tão cedo. Também é verdade que escolas neoclássicas também tendenciam aos alunos só que para o outro lado da moeda sei do que estou falando eu estagio na Fundação Getúlio Vargas e já tive oportunidade de assistir aulas aqui , me parece que há também da parte da faculdade uma certa negligência com a Teoria econômica clássica … Poderia escrever um livro sobre isso, mas paro por aqui.
O que VW diz sobre isso: Roberta, primeiro obrigado pelo comentário! Concordo com você: há influência dos dois lados. Afinal, um dos objetivos implícitos de uma teoria é trazer adeptos. No meu caso só posso testemunhar a parte heterodoxa da coisa, já que não estudei (ainda) em uma escola ortodoxa….
julho 11th, 2009 at 9:31 am
[...] O estudante de economia em escolas heterodoxas [...]
julho 25th, 2009 at 10:17 am
a gente qualé né.. professor neutro é mesmo na usp.. huahuahua ridículo.. dura é a vida de um aluno ortodoxo isso sim.. já dizia stuart-mill “um economista que só estuda economia, nunca será um bom economista” vira técnico da bolsa de valores, consultor de empresa, contador, tudo menos economista.. felizmente, com a luta para se manterem, ainda existem 3 ou 4 instituições não ortodoxas no país.. mas a pressão é muito forte.. logo logo podem morrerem também, e aí então o país será mergulhado na visão restrita do mainstream, cujo o qual não consegue nem realizar uma análise coerente da crise atual.. não possuem uma formação de método e epistêmica que permita pensar fora de sua própria racionalidade.. toscos…