O mito da valorização do magistério

2008
12.18

Observem:

O Ministério da Educação (MEC) considera o piso salarial nacional dos professores – R$ 950 mensais, a partir de 2010 – um passo importante para tornar o magistério mais atraente. É o que diz matéria publicada neste domingo no Globo. A lei do piso, que ancionada em julho pelo presidente Lula, vem sendo contestada por governadores e prefeitos, que tentamnegociar com o governo o fim da exigência de que um terço das horas de trabalho seja reservado para atividades extraclasse, como preparação de aulas e a correção de provas.

O raciocínio implícito é o seguinte: com um salário mais alto, a carreira de professor atrairia as melhores mentes para o posto. E assim, como que por gravidade, o ensino melhoraria.

Simples, não?

Suponha a seguinte situação: você tem 17 anos e gosta muito de matemática. Gosta tanto que vai prestar vestibular para essa carreira. Na inscrição você tem duas subopções: licenciatura e bacharelado. O primeiro é, como todos sabem, para seguir a carreira de professor. Já o segundo é para ser diplomado como matemático e trabalhar com isso em uma grande empresa, por exemplo.

Ao aumentar os salários dos professores, o governo quer influenciar esse jovem que está entrando a trocar o bacharelado (hipoteticamente com maiores opções) pela licenciatura. O governo acredita que as “melhores mentes” não se tornam professores porque o salário é baixo. Assim, ao “valorizar o professor” ele atrairia essas “melhores mentes”. Será que isso é verdade?

Não, não é. A carreira de professor é bastante distinta das demais. Isto porque para ser professor é preciso ter duas capacidades: conhecimento e didática. Geralmente um profissional para ser competente precisa ter apenas conhecimento sobre sua área de atuação. Já o professor que não tem didática dificilmente conseguirá ser um bom profissional. Digo isto porque aumentar salários não é a melhor forma de prover alguém dessas duas capacidades.

Nossas faculdades de licenciatura tem dados seguidos indicativos de que não estão preparadas para dotar o professor dessas duas capacidades básicas (conhecimento e didática) – basta acessar os últimos exames nacionais. Além disso, há estudos que indicam a dificuldade inerente à tarefa de ensinar didática para alguém.

O que isso tudo quer dizer? Algo básico: aumentos salariais não trarão as “melhores mentes” para o magistério. O que trará será um melhor preparo para os professores. Melhores faculdades, bolsas para estudantes de licenciaturas poderem se dedicar de forma plena ao curso – evitando trabalhar ao longo do mesmo.

Como já havia discutido em post anterior, aumentos de salário não necessariamente melhoram a qualidade do ensino. Parece uma afronta, mas qualquer medida de política pública nessa matéria deve visar a melhoria do ensino prestado às crianças e adolescentes. “Valorizar o magistério” é tão vago e tão arbitrário como “colocar computadores nas escolas”. De nada adianta ter professores melhor remunerados, se eles não forem cobrados para dar uma aula melhor.

Para aqueles que querem entender como deve ser feito o aumento salarial, de forma a privilegir os melhores professores, expulsando os ruins do mercado, e ai sim, valorizando a carreira, recomendo fortemente que leiam o post anterior.

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