Os consumidores são de fato racionais?

2009
03.16

Intimamente já formulei uma resposta a esta pergunta. Mas antes de compartilhá-la com os leitores deste blog, conto o que aconteceu comigo no sábado à tarde. É uma estória rápida e com final econômico. Vamos a ela:

Estava eu em casa fazendo faxina quando o interfone tocou. Era uma senhora de 40 e poucos anos – minha vizinha do terceiro andar. Ela estava com um problema com a operadora de telefone, pois havia mudado de endereço – do nono andar para o terceiro no mesmo prédio – e não conseguia há 10 dias transferir o telefone junto à empresa. Ou seja, a questão era bastante simples do ponto de vista técnico: bastava jampear o par trançado para o novo apartamento da senhora.

Aqui cabe a pergunta: por que a senhora me interfonou? Bem, eu já trabalhei em uma operadora de telefonia e não sei como essa senhora dispunha dessa informação. Sabedora disso, a senhora queria que eu fizesse o trabalho da operadora de telefonia e jampeasse o par trançado para o seu apartamento. Não me dispus a fazer o serviço porque estava ocupado e orientei a senhora a entrar em contato com a agência reguladora (a ANATEL), já que o prazo para mudança de endereço é de 3 dias úteis. Ela não entendeu o que eu estava dizendo e continuou tentando me convencer a fazer o serviço para ela. Além disso, aparentava grande revolta com os 10 dias de espera pelo serviço.

A estória terminou comigo alegando que estava ocupado e que não iria fazer o serviço para ela. Além disso, reafirmei o fato dela entrar em contato com o orgão regulador e caso não se sentisse a vontade com a sua atual operadora, informei que já existem outras duas operadoras que fornecem serviços de telefonia fixa. Ela novamente não entendeu muito bem e foi embora um pouco chateada por eu não me dispor a fazer o serviço da operadora.

Para que conto isto neste blog? Por um motivo muito simples: os consumidores não são racionais. Em um sentido estrito, a racionalidade é a capacidade de otimizar toda informação disponível. O problema do consumidor é que ele não consegue fazer bom uso da informação disponível, como a senhora do caso anterior. Ela não sabia que existia um orgão regulador (a ANATEL) e não sabia que havia mais dois players no mercado, apesar de tais informações serem constantemente divulgadas via televisão e jornais. Essa incapacidade de processamento faz com que ela se comporte como se estivesse em um mercado monopolista puro – onde só há uma empresa prestando o serviço. Este comportamento, por sua vez, ratifica a ineficiência da empresa prestadora do serviço, que dada a “irracionalidade” (no sentido de não conseguir otimizar as informações disponíveis) dos consumidores, não tem incentivos para melhorar seu atendimento.

Nesse sentido, a racionalidade dos consumidores, no sentido estrito postado, é de difícil aplicação no mundo real. Não é por menos que modelos de racionalidade limitada, proposto inicialmente por H. Simon, têm tido aprofundamentos teóricos relevantes.

2 Responses to “Os consumidores são de fato racionais?”

  1. Renato Byrro disse:

    A ciência econômica é muitas vezes fascinante, prática e útil. E o seu interessante relato mostra que, apesar disso, ela tem (muitas) limitações!

    As teorias econômicas não explicam o que se passa na cabeça de um ser humano, mas apenas o que acontece da cabeça para fora. Nenhum economista jamais identificou os pensamentos atuantes na mente humana que levam ao comportamento que você observou em sua adorável vizinha… A falta de vontade, a indolência, a propensão ao fácil; são todos pensamentos generalizados em todo ser humano hoje em dia, mas ignorados pela ciência econômica (e, diga-se de passagem, até mesmo pela psicologia e psiquiatria)!

    Abraços!

  2. Victor Naegele disse:

    Caro Vitor,
    Talvez eu esteja forçando um pouco a barra mas tente pensar desta maneira. A senhora sabia todas as informações disponíveis (até a informação que vc já tinha trabalhado na ANATEL) e a forma dela otimizar a utilidade dela seria ligar para vc e fazer com que vc fizesse o trabalho dela. E ela fingindo que não tava entendendo era uma maneira de te forçar a fazer o trabalho. ( Achei meio forçado principalmente a parte de que ela sabia todas as informações disponíveis o que não deve ser verdade.)
    Renato disse: “A falta de vontade, a indolência, a propensão ao fácil; são todos pensamentos generalizados em todo ser humano hoje em dia, mas ignorados pela ciência econômica “, bom um individuo vai sempre tentar otimizar a sua utilidade e pode ser que tudo isso que vc falou são maneiras dessas pessoas otimizarem a sua utilidade. Um individuo preguiçoso irá maximizar a sua utilidade tendo uma “propensão ao fácil”. Logo eu não acho que seja ignorado pela ciência Economica. Estou aberto a críticas.

    Comentários de VW:

    - Eu trabalhei em uma operadora de telefonia (como está no post) e não na ANATEL (parte em itálico do comentário acima);

    - Também achei a idéia bem forçada;

    - Esses comportamentos, como citei no post, não são ignorados pela ciência econômica. Os modelos de racionalidade limitada estão ai para provar isso. Nem mesmo a teoria neoclássica ignora essas “restrições de racionalidade” dos agentes. Como bem explica Marcos Lisboa em seu texto “A miséria da crítica heterodoxa”, racionalidade em um sentido prático é a simples capacidade de um indivíduo escolher entre duas opções diferentes.

Your Reply