As agências de classificação de risco são culpadas pela crise?

2009
03.20

Em uma sexta-feira de vinte e poucos graus no Rio de Janeiro (sim, estou por aqui) fiquei a mexer em meus arquivos sobre a crise atual. Entre eles achei um esqueminha que fiz logo no início da mesma, quando muitos economistas sérios (?) ainda acreditavam na “tese do descolamento” (sic). Neste documento estão algumas notas pessoais sobre seminários, aulas, leituras de livros etc. Em uma das páginas está uma pergunta que me fiz: “até que ponto as agências de classificação de risco são culpadas pela crise?”. Posto isto aqui – com um atraso monumental – porque até hoje vi muito pouco a respeito sendo divulgado na imprensa e blogosfera brasileira.

Afinal, elas são ou não são culpadas pela crise? A minha resposta é não. Alguns leitores poderão dizer que eu estou louco, que esqueci completamente o que aprendi de economia. Isto porque foram elas que referendaram o rating dos títulos securitizados, com lastro em hipotecas do mercado subprime. Foram elas que emitiram grau de investimento para esses títulos, de modo que os grandes investidores (fundos de pensão, principalmente) – que só podem comprar títulos com classificações superiores – pudessem adquirí-los. O fizeram porque haviam incentivos econômicos para isto – elas ganhavam (e ganham) por avaliação.

Nesse sentido, havia incentivos em toda a cadeia de securitização/avaliação para que os títulos subprime escoassem pelo mercado. Havia os incentivos macroeconômicos óbvios – as taxas de juros básicas estavam em nível muito baixo, o que provoca uma “corrida” por rentabilidades mais atrativas. Havia ainda o incentivo na ponta, nos corretores de imóveis, que ganhavam comissões sobre o volume de casas vendidas – gerando, portanto, um incentivo a pouca atenção ao risco dos tomadores de empréstimo.

Desse modo, como as agências de classificação de risco não são culpadas?

Eu sinceramente acho engraçado quando algum colega de profissão dá uma entrevista ou um seminário e culpa o “Deus mercado” e sua ganância por dinheiro pela crise atual. Vá lá que um sociólogo, antropólogo ou coisa que o valha falem essas coisas. Mas um economista? Em nossa profissão aprendemos, desde o instante em que entramos na faculdade, que o ser-humano é guiado pelo seu desejo egoísta, quando se trata de interesses econômicos. A lista de autores que trata do assunto é imensa (para citar alguns: Mandeville, o próprio Smith, Jevons, Lionel Robbins…).

Assim sendo, diante dos incentivos que existiam para que os agentes se comportassem de maneira a corroer o sistema, é natural perguntar: a culpa é das agências de classificação de risco ou dos orgãos governamentais que deveriam regular essas agências?

Para usar uma metáfora: se o seu cachorro morde um amigo seu que ele nunca viu, a culpa é do cachorro ou é sua, que não o prendeu?

Pensem a respeito e bom final de semana a todos…

PS: Nossa brilhante jornalista de economia, Miriam Leitão, caiu no conto (será que ela leu ao menos aquela lista de autores acima?). Veja aqui.

PS 2: Para que não haja dúvidas: o “brilhante jornalista de economia” é pura ironia…

;)

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