A frase acima entre parênteses não é minha. A li na traseira de um carro quando estava dando minha caminhada matinal de domingo. Achei interessante o tema e resolvi escrever algumas palavras a respeito.
Em primeiro lugar consciência e vontade política são expressões de uma mesma tolice: achar que o ser-humano é um animal social, na expressão original de Aristóteles. Lamento desapontar os mais crentes e românticos, mas o ser humano responde a uma coisa que os economistas gostam muito: incentivos. Levou alguns séculos para que a filosofia de inspiração aristotélica fosse substituída pela que realmente trata dos incentivos. Nesse sentido, gosto muito do que Thomas Hobbes (1588-1679) escreveu sobre a natureza humana – regida pela satisfação incontrolável de seus próprios desejos.
Como o leitor deve ter percebido, existe um paradoxo (um trade-off, como gostam novamente os economistas) entre essa natureza humana recheada de paixões e desejos e aquele animal social aristotélico. É o velho (e não resolvido) dilema entre individualismo e coletivismo. Pensar no particular ao invés de pensar no todo.
O ser-humano aristotélico é perfeitamente capaz de reagir a campanhas de conscientização social – que renego veementemente aqui. De fato, ele não fuma em locais fechados, ele não dirige após ingerir bebida alcoólica, ele não estaciona em vagas destinadas a deficientes físicos, ele não recebe propina para que um empresário ganhe uma licitação entre outras coisas. Por que ele não faz isso? Acertou quem disse que ele não faz essas coisas simplesmente porque ele não existe. A construção aristotélica baseada no animal social não tem validade se confrontada com o mundo real.
Em nosso mundo as pessoas fazem todas aquelas coisas e muitas outras porque pensam apenas em seus próprios interesses. Isto significa que a frase que o companheiro colocou no carro é duplamente equivocada. Não falta consciência, nem vontade política. O que falta para o Brasil (e qualquer outro país) se tornar civilizado e desenvolvido é uma estrutura de incentivos corretos.
Como se obtém isso? Acertou quem respondeu instituições. É muito difícil (talvez impossível para quem segue Douglass North) construir uma nação sem instituições que sinalizem um comportamento econômico (e social) que estão em conformidade com o desenvolvimento. E isso se aplica a praticamente tudo dentro de uma sociedade.
Nós brasileiros nos desprezamos muito. Achamos que dada a nossa colonização, só vieram para cá prostitutas, ladrões e toda sorte de pessoas medíocres. O resultado: nosso povo só pensa em festa, em se dar bem às custas dos outros… Esse é um pensamento tolo e até mesmo infantil se for feito um estudo sério de nossa História.
O cidadão médio é ignorante quanto a temas relevantes (geopolítica, energia, eleições…) em qualquer lugar do mundo. Na América do Norte, na Europa, na Ásia, enfim, em todo o canto do planeta o “agente representativo” só olha mesmo para o próprio umbigo. Ele não tem consciência social e nem quer ter. Os políticos então, nem se fala: são iguais em toda parte. A grande diferença entre o mundo desenvolvido e o não-desenvolvido se chama instituições. Naquele elas existem, neste elas engatinham.
O mundo latino-americano, que nós brasileiros conhecemos bem, é regido por relações pessoais, por informalidade. Para instalar uma indústria nesses países é condição necessária ter um contato no governo. Os contratos não contam com um aparato jurídico sólido. A informalidade das relações sociais gera um clima nada amistoso para a construção de um ambiente de negócios estimulante. Pelo contrário, quanto mais informal (e burocrático) for tal ambiente, menor será o nível de desenvolvimento da região.
O companheiro que colou o adesivo “O que falta é consciência e vontade política” foi iludido. Quis ser politicamente correto (afinal, tá na moda!) e fez propaganda de uma grande besteira…