Saber qual é a melhor faculdade é o de menos…

2009
07.11

Um dos questionamentos mais comuns dos iniciantes em qualquer carreira é saber qual é a melhor faculdade na sua área. Em economia não é diferente. Tanto vestibulandos quanto graduandos vivem debatendo qual seria a melhor escola do país. Neste pequeno post procuro argumentar que essa informação não é a mais importante. Ao invés disso, é preciso saber o que se quer fazer depois de ter cursado uma faculdade de economia.

Primeiramente, sugiro aos iniciantes que busquem saber o que é economia, para não cair em uma fria – aqui tem um post sobre o assunto. Existem muitas ilusões quando o tema é este. Alguns acreditam que economia é apenas uma ciência social, outros que é uma ciência exata. Encontrarão a resposta no meio termo. Economia é uma ciência social aplicada, i.e., exige conhecimentos matemáticos e conhecimentos de ciências humanas, como História. Um economista minimamente competente não pode simplesmente abdicar de um dos dois conhecimentos. Talvez por isso, economia seja um campo tão mal compreendido – mesmo pelos seus mais sinceros admiradores.

Dito isto, vamos a um ponto importante: às escolas de economia. Nos debates corriqueiros existe uma divisão entre escolas ortodoxas e escolas heterodoxas. Nas primeiras o foco do ensino é a escola de pensamento neoclássica, com origem na “revolução marginalista”, que redefiniu o conceito de valor. A água vale menos do que diamantes simplesmente porque existe mais água do que diamantes no mundo. Nessas escolas há um treinamento matemático bem rigoroso, de modo a preparar o corpo discente para os pesados modelos macro e microeconômicos que são ensinados nos períodos mais avançados.

Já nas escolas heterodoxas, como o próprio nome sugere, são estudadas uma gama de escolas de pensamento. O leque é amplo,
indo desde a escola pós-keynesiana à neo-schumpeteriana. A grande diferença dessas escolas em relação às ortodoxas é justamente a percepção que elas têm dos modelos econômicos. Você dificilmente encontrará um economista heterodoxo que assume premissas demasiadamente irrealistas. Isto é, hipóteses frias como expectativas racionais ou otimização de funções objetivo não fazem parte dos experimentos heterodoxos. Talvez, por conta disso, as escolas heterodoxas não se preocupem tanto com o ensino de uma matemática mais avançada; deixando a cargo dos alunos mais interessados a busca por cursos eletivos.

A matemática é, de certa forma, uma das grandes diferenças entre as escolas heterodoxas e as escolas ortodoxas. Nestas ela é ensinada ao extremo, enquanto que naquelas existe uma lacuna visível. Ambas, por suposto, estão erradas. A matemática é apenas uma ferramenta, que deve ser usada com bom-senso e sabedoria. O uso extremado traz consequências terríveis enquanto que a sub-utilização torna o entendimento um tanto quanto confuso. A matemática serve para elucidar questões. Ela não deixa dúvidas quanto a exatidão das cadeias de causalidade. O seu abuso torna o mundo hermético e o seu desuso impede análises mais rígidas.

No Brasil existem boas escolas ortodoxas e boas escolas heterodoxas. Nas primeiras podemos citar as unanimidades PUC-Rio, FGV-Rio e IBMEC. Nas segundas UFRJ, Unicamp, UFPR e UFRGS. Há quem coloque a USP e a UNB no meio termo, por possuirem tanto professores mais ortodoxos quanto professores heterodoxos. É possível dizer qual é a melhor desssas instituições utilizando alguns parâmetros básicos, como quantidade de professores DE, quantidade de publicações por professor, avaliação do corpo discente, qualidade das instalações etc. Neste breve post não pretendo fazer esse tipo de comparação, haja vista que já foram feitas.

O importante, de fato, para escolher uma faculdade de economia é ter em mente o que se quer aprender. E este é um questionamento pessoal extremamente complexo. Isto porque ele é feito em uma idade onde as pessoas não tem a menor idéia do que são e do que querem para suas vidas. Muito menos o que querem ser em economia. Nesse sentido, uma boa ajuda é listar as opções disponíveis.

Os campos de trabalho em economia podem ser divididos nos seguintes: 1) o campo acadêmico; 2) o campo financeiro; 3) o campo
corporativo; 4) as consultorias. O primeiro é destinado às pessoas que se sentem atraídas pela pesquisa e pelo ensino. São os “eternos estudantes”. Para seguir esse caminho é preciso fazer mestrado e doutorado. Uma carreira bem construída passa por uma graduação bem feita, um mestrado no Brasil em uma escola com conceito (no mínimo) 5 na CAPES e doutorado no exterior. Acreditem: é possível seguir essa linha mesmo sem dinheiro. Nosso país é um dos poucos do mundo onde o ensino superior é gratuito para os estudantes – e pago pela sociedade, pois lembre-se que não existe almoço grátis. Basta se aplicar e aproveitar as oportunidades.

O segundo campo é o mercado financeiro. Trabalhar em corretoras (Ágora), bancos de investimentos (Fator, Pactual), fundos de investimento (Gávea Investimentos) e demais empresas do sistema financeiro. Para seguir esse caminho é preciso ter uma base
matemática sólida, conhecer finanças a fundo e saber reagir bem à pressão. Nesse aspecto faço uma ressalva importante: se você estudar em uma escola heterodoxa verá muito pouco de finanças. Terá de fazer cursos extras para ficar em pé de igualdade com alunos das escolas ortodoxas.

O terceiro campo é o mercado de trabalho normal, que tem bastante similaridades com o campo financeiro. Caso opte por esse caminho disputará as vagas com engenheiros e administradores. Trabalhará em setores como financeiro, planejamento, suprimentos, comercial, análise de risco etc. Assim como no caso do campo financeiro, geralmente terá de conhecer bastante de EXCEL e ACCESS – saber fazer macros e conhecer VBA são pontos extras nas seleções. Em ambos os campos enfrentará processos seletivos bem complexos, com análises psicológicas e testes muito bem elaborados.

O quarto campo é o das consultorias. Ser consultor em macroeconomia, regulação, energia etc. Uma especialização (MBA, pós lato-sensu etc.) cai bem, mas o mestrado (um profissionalizante, talvez) também é uma boa opção, dada a competição cada vez mais acirrada. Nessa área é importante saber falar bem em público, ter jogo de cintura para “aturar” clientes chatos e ter disponibilidade 24×7. Isto porque, cliente não quer saber se são duas da manhã: ele está pagando por isso. Existem pessoas que gostam de trabalhar assim, outras simplesmente detestam. É preciso avaliar bem se isso se adapta ao seu estilo de vida.

Enfim, mais importante do que querer saber qual é a melhor faculdade de economia é saber o que se quer da vida profissional. Como dito, existem boas escolas de economia no país. Se você estudou em alguma delas (PUC, IBMEC, FGv, UFRJ, USP, UNICAMP, UFRGS, UFPR, UNB etc.) está em um bom caminho. Mais importante do que isso é justamente saber qual campo irá atuar depois da faculdade. Sabendo isso, basta seguir os passos corretos e tudo ficará bem…

Leia também:

O estudante de economia em escolas heterodoxas

9 Responses to “Saber qual é a melhor faculdade é o de menos…”

  1. JOAO MELO disse:

    E acrescentando ao que você escreveu, INDEPENDENTEMENTE da Escola onde o aluno estuda/estudou, SE ele não for um ótimo aluno, ele não será de fato um bom ECONOMISTA.
    Abraço,
    João Melo, direto da selva

  2. Daniel disse:

    Excelente explicação, nao retiraria nenhuma virgula. Principalmente pelo fato de conceber a economica como um universo bem mais amplo que julgam muitos profissionais.

  3. O q importa é acabar com a sujeira! Quem faz a escola é o ALUNO. A vida toda estudei em colégio público. Inclusive em universidades públicas. No seundo grau, fui agraciada com uma bolsa de 75% por ter passado em 2º lugar num exame, cujo o top da lista foi um estudante um ano mais adiantado, de um cursinho concorrente. Tudo graças à boa base adquirida em anos de escola pública! Falando em sujeira e limpeza, vai uma boa matéria: http://sputnikafalaserio.blogspot.com/2009/07/faxinando-politica-sem-vassoura-de.html
    Abs.

  4. O q importa, DE FATO, é acabar com a SUJEIRA> Seja nas rusa, nos hospitais, nas escolas, nas universidades… é ter consciência de cidadão. O q faz a escola é o aluno. Sempre estudei em col público. Inclusive, faculdades públicas. Qdo fiz o segundo grau, hj, ensino médio, era bolsita: 75% de desconto. Passei em 2º lugar no exame, cujo primeiro colocado já era uma série adiantada e fazia cursinho no concorrente. No mais, a gente é q tem q correr atrás! Falando em SUJEIRA e Faxina, um texto legal:

  5. Vixi! falha nossa! Achei q tinha perdido o primeiro texto, o q foi postado dps… hehehe Coisa de gente véia e estressada… Foi mal!

  6. Enoch Filho disse:

    @João, pra atuar na área tem que ter raça pra conquistar um lugar ao sol (ou seria na sombra?)

    @Vitor, ampliei um pouco o assunto, no meu blog, falando sobre o que as pessoas acabam fazendo após o curso de Economia.

  7. Enoch Filho disse:

    @Daniel, se ampliar demais acabamos caindo no escopo da administração. Não que isso seja bom ou ruim, mas a verdade é que muitos trabalharão com gestão…

    @Ana Paula, esse negócio de que quem faz a universidade é o aluno, é uma meia verdade. “Onde” faz diferença sim, mas quem não tem cão, caça com gato!

  8. Pode trocar o gato por um lobo-guará! kkkkk Dá moral ao bioma cerrado e ainda ganha vantagem sobre o gato e até o cão! hehehe Bjs.

  9. Cadu disse:

    Faltou dizer que tem o serviço público, que é mais plural em termos de áreas de conhecimento, variando de administração, finanças e direito.

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