O crescimento da economia brasileira em 2010 deve gerar ao menos uma externalidade negativa: o aumento do deficit em conta corrente. Isto porque, com o aumento da renda, provocada pelo incremento da produção de bens/serviços, gera-se aumento das importações, reduzindo o saldo na balança comercial. Além disso, o maior fluxo de investimentos estrangeiros verificado nos últimos anos tem gerado um aumento considerável na remessa de lucros e dividendos para o exterior, o que faz aumentar o deficit em conta corrente.
A questão que segue é a seguinte: isso é preocupante? A resposta mais lógica é que sim, porque para financiar esse deficit é preciso contar com o contínuo fluxo de capitais estrangeiros para o Brasil. Ou seja, ficamos na dependência de um cenário externo bom e baixa aversão a risco, de modo que os investidores continuem mandando dólares para cá.
Uma reversão de expectativas pode dificultar o financiamento desse deficit e gerar uma imediata depreciação cambial. Isto, por sua vez, gera pressão inflacionária sobre a economia, o que aciona a política monetária e freia o crescimento econômico. Desse modo, sim, o deficit externo deve ser uma preocupação para os próximos anos.
Os que, pelo contrário, não veem tal questão como preocupante estão acreditando em uma continuação da atração de capitais por parte do Brasil. E isso, claro, depende de uma continuação da recuperação da economia mundial. Não digo que esse não seja um cenário factível para os próximos anos. A questão mais importante é a mesma que já toquei em artigo anterior (disponível aqui): por mais que tenhamos reduzido nossa vulnerabilidade externa conjuntural, ainda temos uma pesada vulnerabilidade externa estrutural.
E isso é representado justamente por deficits estruturais em conta corrente e a atratividade que a conta financeira possui. Não é outra coisa que caracteriza um país subdesenvolvido. Se quisessemos abandonar esse modelo de crescimento com poupança externa (que está ai não é de hoje), deveríamos promover reformas estruturais com o objetivo de aumentar os mecanismos de crédito, de modo a financiar o investimento de que precisamos.
Por fim, é preciso salientar que o deficit em conta corrente é sim preocupante. A redução da nossa vulnerabilidade externa é conjuntural. Continuamos expostos a reveses na economia mundial. Seria interessante que os analistas de plantão se demonstrassem preocupados com essa questão.