Em um almoço nessa semana com um grande amigo dos tempos de Telemar, foi abordado um tema no mínimo curioso, que me fez pensar por alguns instantes. Meu amigo trabalha atualmente em uma distribuidora de alimentos e está envolvido no processo de migração para a Nota Fiscal Eletrônica (NFe), um novo instrumento projetado pelo governo federal que visa simplificar a vida dos empresários brasileiros e reduzir a sonegação fiscal.
A questão relevante do almoço sobre esse assunto não foi propriamente a operacionalização do novo sistema, mas sim o impacto do mesmo na, veja você, inflação. Isso mesmo, o leitor não leu errado.
A questão toda é baseada em duas hipóteses: 1) a sonegação é alta no país; 2) o dinheiro sonegado não fica com o empresário, mas é repassado para os preços – reduzindo-os. Dependendo de quão forte forem essas duas hipóteses na economia brasileira e se a NFe conseguir de fato reduzir a sonegação fiscal, é factível imaginar que haverá repasse para os preços, o que acarretará um repique inflacionário.
A idéia é interessante e merece a atenção dos economistas de plantão…
Tags: Inflação, nota fiscal eletrônica, políticas do governo
A idéia é interessante, mas será que os empresários que sonegam em grande quantidade realmente são uma espécie de Robin Hood da Economia Brasileira ? Tiram dos ricos (deixando de pagar ao Governo, ou seja, aos ladrões dos cofres públicos) e dando aos pobres (reduzindo os preços) ? Estou mais propenso a acreditar que quem esteja sonegando, realmente esteja ficando com tudo ou quase tudo que é sonegado. Mas, ainda assim, acho factível um repasse para os preços se os empresários resolverem alegar (num momento de imposição da NFe) que eles terão gastos adicionais para implantar o sistema e dae quem pagará a conta será o consumidor … as usual !
Comentário do VW:
Então Serginho, acabei não colocando no post para deixar a galera pensar, mas a questão de repassar a sonegação para os preços (reduzindo-os) vai depender de quão competitivo for o mercado em questão. Se o mercado for muito competitivo, dificilmente o empresário conseguirá ficar com o dinheiro da sonegação no bolso, já que existem incentivos para que o mesmo repasse para o preço e conquiste uma maior fatia do mercado. Nesse caso, acaba ocorrendo que se um faz, todos tem de fazer, já que se não o fizerem estão expulsos do mercado. Já em mercados menos competitivos, monopólios, duopólios ou até mesmo oligopólios, é mais simples colocar o dinheiro da sonegação no bolso, já que existe poder de mercado por parte dos empresários em questão.
Nesse contexto, existe mais competição, por exemplo, no comércio e não é por outra razão que existe uma maior propensão desse setor a sonegar (senão sonegar tem que praticar um preço mais alto do que a concorrência) – dados comprovados pela Receita Federal. Não há dúvidas de que uma redução da sonegação nesse setor acarretará em aumento de preços – coisa que, aliás, já vem acontecendo. Grandes empresas, de maneira geral, sonegam menos do que pequenas empresas porque são mais fiscalizadas pela Receita.
A questão é, enfim, bem interessante…
Eh…
Outro dia eu tb estava analisando outras questões, como por exemplo o famoso “gato” de luz e agua.
Pra quem acha que só o morador da favela que faz, tá muito enganado. Tá cheio de grandes empresas, casas de show e afins onde de tempos em tempos se encontra uma fraude. Conheço gente na Light que confirma isso. Aliás, cerca de 30% da energia distribuída pela Light vai para as fraudes!!
Aí vc me diz: como que um empresário sério – que não sonega impostos, que não faz fraudes, etc – pode competir nesse mercado?
Como que vc pode pensar em criar um lava-jatos sério por exemplo se a concorrência puxa fio do poste, água do hidrante, não paga imposto algum (nota fiscal? que isso?) e paga 10 reais/dia (contrato de trabalho? q isso?!) para o moleque ajudar a lavar os carros?
E a questão dos incentivos não ajuda: essas empresas que fazem gato de luz não são expostas na mídia, ninguém é punido exemplarmente, etc,etc…
Se essas coisas se ajustarem em algum “choque de ordem” sério – que ocorra abruptamente – pode ter certeza que vai rolar um repique inflacionário.
Abraços.
Comentário do VW:
É isso ai mesmo Eduardo. Como disse no comentário do Serginho, em alguns setores acaba existindo uma propensão a sonegar muito forte, porque o preço de equilíbrio já embute esse delta da sonegação. Para não sonegar e praticar tal preço o empresário precisa ser ultra-mega eficiente na gestão de custos.
É claro que seria necessário testar econometricamente aquelas duas hipóteses que citei, mas é interessante verificar que existe uma correlação entre as duas situações (sonegação e inflação).