A opção por custos mais altos
Existe atualmente um paradoxo irremediável entre crescimento econômico e meio ambiente. Não são poucos aqueles que identificam a impossibilidade de gerar desenvolvimento econômico sem afetar os recursos naturais de um país. De fato, mesmo o desenvolvimento dito sustentável gera problemas, ainda que menores, ambientais. No Brasil atual, o governo petista utilizou de um subterfúgio para driblar tal dilema e expandiu a matriz energética por meio de termelétricas. A pergunta que nos cabe fazer, entretanto, é se essa opção é a mais eficiente, seja em termos de custo ou impacto ambiental.
Há entre os ambientalistas uma grande rejeição à construção de usinas hidrelétricas com reservatórios. Isto porque, para viabilização das mesmas, é preciso que cidades inteiras sejam alagadas, gerando impactos tanto para as populações envolvidas quanto para a fauna e flora locais. Não é por outro motivo que os principais projetos hidrelétricos atuais (Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, em Rondônia e Belo Monte, no rio Xingu, Pará) não possuam reservatórios, sendo movidos apenas pelo curso dos rios onde foram implementados.
Isso, entretanto, gera uma externalidade negativa bastante interessante. A hidrologia de um rio não é linear durante o período de um ano. Ela é composta por um período seco, onde os índices pluviométricos são mais escassos, e por um período úmido, onde tais índices são mais elevados. Tal distribuição entre períodos secos e úmidos gera o chamado risco hidrológico, que afeta diretamente a geração de energia e deve ser cuidadosamente administrado.
Em usinas hidrelétricas com reservatórios, tal risco é administrado internamente. Ou seja, nos períodos úmidos acumula-se água nos reservatórios para que a mesma seja utilizada nos períodos secos. Nesse contexto, é possível distribuir a geração de uma usina de forma mais linear ao longo de um período de tempo. Já em usinas hidrelétricas a fio d´água (sem reservatórios) tal risco deve ser administrado de forma externa à usina.
Como a mesma não possui reservatórios, em períodos secos ela deve reduzir (ou até mesmo interromper) a geração de energia. De modo a atender a demanda de energia, entretanto, é preciso que existam fontes complementares de geração. No Brasil atual essa complementação é feita através de usinas termelétricas, que utilizam como insumo carvão, derivados de petróleo, gás etc.
Nesse contexto, em termos de custo, a geração hidraúlica é muito mais eficiente do que a geração térmica. Isto porque, o insumo daquela é muito mais barato do que o insumo desta. Não há muitas dúvidas, portanto, de que a opção brasileira pós-racionamento é por uma estrutura de custos muito mais elevada, se continuarmos dando preferência às usinas térmicas e hidrelétricas a fio d´água na expansão da oferta.
Mesmo em relação ao impacto ambiental não fica evidente se fizemos uma escolha correta. Isto porque, a expansão via térmicas, além de ser mais custosa, polui nossa matriz energética, pela emissão de gás carbônico para a atmosfera. Desse modo, as únicas justificativas políticas razoáveis para a expansão via térmicas são o menor período de construção e a existência de um impacto ambiental ex-post.
E não é por outros motivos que tal expansão foi feita através da construção de usinas termelétricas e hidrelétricas sem reservatórios. A questão política foi primordial. Isto porque, não se justifica, seja via custos ou impacto ambiental, o atual desenho da expansão energética brasileira. Tal opção é nitidamente por maiores custos e, possivelmente, por maior agressão ao meio ambiente no horizonte futuro.