O Inep divulgou um conjunto de tabelas que trata do investimento público em educação, tendo como base o ano de 2008. Em termos comparativos com o PIB, o valor ficou em 4,7%. Mas essa não é a parte interessante do estudo – já que houve pouca alteração em relação a 2007. O que chama atenção na análise dos dados é o fato de que a razão entre investimento em educação superior e investimento em educação básica por estudante está em franca redução, como evidencia o gráfico que elaborei abaixo.
A razão sai de 11,1 em 2000 para 5,6 em 2008, graças ao maior crescimento do investimento em educação básica em relação ao investimento em educação superior – tal razão é inferior a 3 na maioria dos países desenvolvidos. O motivo para isso pode ser depositado na aprovação do FUNDEB (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica), que vem repassando mais dinheiro público para a educação básica.
O crescimento anual do investimento em educação básica vem sendo superior a 17% desde 2006, enquanto que na educação superior o número é de 4% a.a. Isso significa que, enfim, o Estado brasileiro está dando atenção para uma grave discrepância do sistema de ensino brasileiro: privilegiar o ensino superior em detrimento dos demais níveis de ensino.
Há, é claro, muito por fazer nesse campo. O gasto anual por aluno nas universidades estatais é, por exemplo, de R$ 14.763. Em um curso de quatro anos, retira-se cerca de R$ 60 mil, em média, dos cofres públicos para formar um profissional de nível superior. Tal gasto é pouco justificado na maioria dos cursos de graduação, dado a baixa externalidade positiva que advém do mesmo. O que se sabe, pelos estudos e pesquisas na área de educação, é que tal gasto público é privadamente apropriado pelo indivíduo, de modo que é de difícil mensuração o retorno social desse dinheiro.
No campo da educação básica, cuja externalidade para a sociedade é muito mais elevada, é preciso aumentar sim o investimento público – ainda que muitos especialistas considerem 4,7% do PIB como bastante razoável. Entretanto, como já disse repetidas vezes nesse espaço, não basta dar mais dinheiro, é preciso melhorar a gestão do mesmo. Colocar mais verbas públicas em um sistema que peca em meritocracia e gestão adequadas é dar um tiro no pé, às custas do contribuinte. O crescimento do investimento público experimentado nos últimos anos foi mal feito porque não foi vinculado a aumento de qualidade (melhor formação do professor, dos diretores, aumento dos índices de aprendizagem, redução da evasão escolar, aumento na distribuição de merenda escolar, aumento na carga horária de estudos etc.).
Enquanto não mudarmos isso, falar em mais dinheiro para a educação é atender apenas aos interesses dos sindicatos da área, sem nenhuma contrapartida em termos de qualidade. Espero que o novo governo se preocupe com essa questão…
OBS: Para ver o conjunto de tabelas do INEP basta clicar aqui.
Tags: Educação, investimento público em educação, qualidade da educação


Realmente, temos muito o que evoluir em termos de investimento em educação, mas acho interessante como gráficos podem ser usados para fazer a pessoa acreditar no que você quiser. Por exemplo, alguém do PSDB, olhando o primeiro gráfico, poderia dizer algo do tipo: “O governo FHC investiu na educação superior mais que o governo Lula”, por outro lado, vendo o segundo gráfico um elemento do PT diria: “Nunca antes na história desse país se aumentou tanto o investimento em educação como feito no governo Lula”. Ambas induzem o leitor mais desavisado (a grande maioria dos eleitores, é bom lembrar) a acreditar em meias-verdades, já que quantidade de investimento não significa muita coisa, qualidade do que é investido, como bem disse VW é o mais importante !