Archive for the ‘Conjuntura Econômica’ Category

O Brasil precisa de poupança para crescer?


2010
06.24

Desde que foi divulgado o resultado do PIB no 1º Trimestre [alta de 2,7% contra o 4º trimestre de 2009] tem sido publicado nos cadernos de economia uma série de matérias sobre a sustentabilidade do atual ciclo de crescimento econômico. De maneira geral, existiriam dois tipos de limitações recorrentes: i) um problema de oferta, sintetizado no aumento de preços; ii) um problema de falta de poupança, expresso no aumento do déficit em conta corrente. Aqui, me concentro no segundo, dado que o primeiro é tema recorrente neste espaço.

Há uma tese em economia, sustentada desde que a primeira grande obra nesse campo do conhecimento foi publicada [A Riqueza das Nações - Investigação sobre sua natureza e suas causas, Adam Smith, 1776], de que o crescimento necessita de poupança. Isto porque, para que o investimento em máquinas e equipamentos [denominada nas Contas Nacionais como Formação Bruta de Capital Fixo] possa existir é preciso que ele seja financiado. Assim, a existência de poupança prévia para financiar o aumento do estoque de capital seria condição necessária para que uma economia alcançe taxas mais robustas de crescimento econômico.

Dado isto, a taxa de investimento no Brasil é baixa em relação ao PIB porque igualmente é baixa a taxa de poupança – atualmente esta está em 15% [do PIB] e aquela em 18%. Para dar robustez ao argumento, geralmente o jornalista [ou mesmo economista] cita a emergente China, com seus impressionantes 50% de taxa de poupança e 40% de taxa de investimento em relação ao PIB. Por fim, cita-se o recorrente fato de que a falta de poupança doméstica [privada mais pública] é a a causa de termos sempre um aumento do déficit em conta corrente [que é em termos de contas nacionais igual ao uso de poupança externa]. Somente para esse ano as projeções estão em US$ 50 bilhões de déficit.

O argumento é claro, portanto, em defender o aumento da poupança, de modo a financiar o investimento, evitando o aumento do déficit em conta-corrente – que seria insustentável no médio prazo. Para que isso ocorra, é preciso que a) haja uma reforma na previdência, de modo a criar incentivos para que os brasileiros poupem mais; b) o governo reduza seus gastos correntes, aumentando a poupança pública. Feito isto, ai sim, poderíamos sustentar o atual ciclo de crescimento econômico.

A teoria alternativa ataca justamente a idéia da necessidade de poupança prévia para financiar o aumento no estoque de capital. Ela é baseada na obra de John Maynard Keynes, que em sua Teoria Geral [1936] provou que a poupança é um resíduo dentro do sistema econômico – ela é determinada ex-post. Não existiria, portanto, uma decisão autônoma sobre a poupança. Em economias de mercado, onde são feitas milhares de transações comerciais [onde uma compra corresponde a uma venda], a única decisão autônoma é a decisão de gastar, de comprar um bem ou serviço. O empresário não possui controle sobre o que vende, ele não sabe se de fato irá vender o que produziu. Se assim fosse [como previa a Lei de Say] não poderia haver nenhuma crise econômica, já que todos os bens e serviços produzidos em uma economia seriam vendidos. Não há, portanto, incerteza nesse tipo de raciocínio.

Sendo a decisão de gastar a única decisão realmente autônoma, como ela pode ser definida? Keynes divide o gasto [ou despesa] agregado de uma economia em dois tipos: consumo e investimento. O consumo seria função basicamente da renda do indivíduo [atualmente não apenas da renda, mas muito consideravelmente do crédito] enquanto o investimento seria função do custo representado por tomar empréstimo [as taxas de juros] e apenas indiretamente da renda corrente.

Nesse contexto, sendo o consumo função da renda corrente, há de se ter um raciocínio circular quando queremos investigar as causas do aumento do PIB [e, portanto, da renda agregada] dos países. Tendo isso em vista, Keynes se concentra no investimento corrente como propulsor do crescimento econômico. No curto prazo, o fluxo de investimento em máquinas e equipamentos é um componente do gasto agregado, já no médio e longo prazos é também componente da oferta, pois faz aumentar a capacidade produtiva. Estaria bem, portanto, a economia que conseguisse fazer com que os empresários [dominados pela incerteza da economia e dotados de expectativas sobre o futuro] aumentassem os seus investimentos, apostando que seus produtos encontrassem um feliz comprador no futuro.

Sendo o investimento o propulsor [vividamente autônomo] do crescimento, como financiá-lo? Keynes supõe, como dito, que a poupança é um mero resíduo do processo produtivo, sendo determinada apenas ex-post. Então, como o empresário financia a ampliação da sua planta? Ele tem três alternativas gerais para se financiar: o uso de lucros retidos [a sua "poupança"], a emissão de ações ou a emissão de dívida. Keynes se concentra no último tipo, dando ênfase ao crédito como elemento fundamental de uma economia de mercado. A existência de um mercado financeiro bem azeitado seria, então, a condição necessária para a sustentabilidade do crescimento econômico, haja visto que dele depende o investimento.

É claro que, lembrará o leitor amigo, a simples existência de um mercado financeiro pressupõe algum nível de poupança prévia. Isto porque, por mais alavancado que um banco [ou de modo mais geral, um intermediador financeiro] esteja, algum capital mínimo ele deverá manter em seus cofres. E só o mantém se possuir em sua carteira um conjunto mínimo de agentes poupadores.

Mas isso, ao contrário do que pensam alguns, não inviabiliza o argumento keynesiano. A existência de um mercado financeiro organizado [e, portanto, de uma poupança prévia] nada mais é do que a consequência de uma acumulação primitiva de capital. E neste momento específico da História humana a idéia de poupança prévia perde importância.

Keynes lembra ainda que uma alta propensão média a poupar pode trazer mais transtornos do que propriamente benefícios à economia. Isto porque, se a renda é dividida entre consumo e poupança, um aumento em uma parcela está intimamente ligado a uma redução da outra. Desse modo, o aumento da poupança, ao reduzir o consumo [e, portanto, a demanda], faz com que empresários acumulem estoques, freando investimentos na ampliação da capacidade produtiva, reduzindo a taxa de crescimento econômico.

Assim sendo, é a poupança completamente desimportante? Não, de modo algum [é curioso como ao ter contato com as idéias keynesianas alguns jornalistas e mesmo economistas têm esse tipo de "conclusão"]. A questão levantada por Keynes é que o aumento da poupança é consequência [e não causa] do crescimento econômico. As economias de mercado avançam quando o investimento [elo autônomo da demanda] avança. E este só é possível se i) os empresários acreditam que irão vender os seus produtos; ii) existe um mercado financeiro capaz de financiar esse investimento.

Passando do positivo para o normativo, a questão-chave para a sustentabilidade do crescimento brasileiro não é a poupança [um resíduo], mas sim o porquê do nosso sistema bancário ser involuído. Por que o crédito privado é tão pequeno como proporção do PIB? Por que os bancos privados emprestam tão pouco? A resposta deve ser encontrada em uma simples olhada nas carteiras dos bancos. Elas estão abarrotadas de títulos públicos! Com uma taxa de juros básica elevada, por que cargas d´água assumirei maiores riscos emprestando a um empresário que nem tem idéia se conseguirá vender os seus produtos?

O custo de oportunidade de emprestar dinheiro no Brasil é muito alto. É isto que significa termos uma taxa de juros básica [a SELIC] em níveis tão altos. E ela é alta, em grande medida, por nossa irresponsabilidade no manejo das finanças públicas e por nossa incapacidade em construir um ambiente juridicamente estável.

Temos trilhado nos últimos anos um caminho diverso do comumente vivenciado ao longo da nossa História. É salutar verificar que hoje existe no Brasil um mecanismo jurídico de responsabilidade fiscal. Mas isto é ainda muito pouco para termos um sistema bancário disposto a emprestar. É preciso reduzir o risco de crédito, i.e., é preciso que o ambiente de negócios brasileiro tenha previsibilidade. É preciso que tenhamos um sistema jurídico que esteja do lado do credor [e não do devedor, como é hoje].

Essas são as grandes questões que devemos discutir. A redução dos juros básicos e a construção de um sistema judiciário eficiente são fundamentais para a sustentabilidade do crescimento, pois impulsionariam um aumento da relação crédito/PIB – atualmente em pouco mais de 40%. Pelo contrário, o debate ralo que se vê nos cadernos de economia pouco se concentra nesses desafios. É, leitor amigo, simplesmente lamentável…

Ciclo econômico do Real


2010
06.08

Clique aqui. Destaque para as diferenças entre o período Lula e FHC.

PIB do 1º Trimestre cresce 2,7% na margem


2010
06.08

O PIB do 1º trimestre de 2010 teve crescimento conforme o previsto: 2,7% na comparação com o trimestre imediatamente anterior. Em termos anualizados, um robusto crescimento de 11%. Pelo lado da oferta, destaque para a Indústria, que nessa mesma comparação avançou 4,2%; já pelo lado da demanda, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) continuou a retomada verificada a partir do segundo trimestre de 2009: avançou 7,4% na margem e robustos 26% na comparação com o mesmo período do ano passado.

O consumo das famílias completou 26 trimestres apresentando crescimento positivo (desde o último trimestre de 2003) no acumulado de 12 meses – com uma média de 5,1%. Nessa mesma comparação, o consumo do governo destoa: apresenta crescimento positivo há 35 trimestres consecutivos (com uma média de 3,1%)!

No ciclo econômico que permeia o Plano Real (terceiro trimestre de 1994 até hoje)
, o mínimo global foi atingido no terceiro trimestre de 2009, com um tombo de 1% no acumulado de 12 meses. Já o máximo global foi verificado no segundo trimestre de 1995, com avanço de 8,5%. Antes da crise que se abateu sobre a economia mundial, o Brasil havia atingido o segundo maior valor [um máximo local] nessa comparação: 6,7% no terceiro trimestre de 2008. Para maiores detalhes clique aqui.

Produção industrial recua em abril


2010
06.02

A produção industrial de abril recuou 0,7% em relação a março. Isso indica uma acomodação natural e já esperada frente ao fim da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para bens duráveis e ao forte crescimento verificado no primeiro trimestre de 2010. Estava bem claro que não dava para manter um “ritmo chinês” por muito tempo. Esse recuo, inclusive, antecipa o que deve acontecer com o PIB do segundo trimestre: na margem ele terá um crescimento menor do que o verificado no primeiro trimestre (cujo resultado será divulgado na semana que vem pelo IBGE).

Refletindo esse comportamento da produção industrial na margem, o nível de utilização da capacidade instalada [da indústria de transformação] também teve leve recuo: saiu de 85,1% em abril para 84,9% em maio. Há quem explique o fato por uma maturação de investimentos, que ampliando a capacidade produtiva, faz recuar o nível de utilização. O certo, porém, é que a indústria está se acomodando ao comportamento da demanda. No primeiro trimestre, por conta das desonerações tributárias, ela se manteve em um patamar extraordinariamente elevado. Isto não se manteria ao longo do ano, indicando que em algum momento o recuo verificado ocorreria.

Mas nada indica que isto significa uma tendência. Ocorreu apenas uma mudança de nível: de um crescimento mais robusto [inflado pela política fiscal anticíclica] para um crescimento mais adequado ao comportamento da demanda. Com a taxa de desocupação em contínua queda, aumento do rendimento médio e da massa salarial real, as vendas no comércio tenderão a continuar crescendo, o que se refletirá na produção industrial. No acumulado ao longo de 2010 [como mostra o gráfico abaixo], a alta de janeiro a abril [conta igual período de 2009] foi de 18,02%.

PIB Trimestral

A expectativa para o PIB do 1º Trimestre está em crescimento entre 2,3% e 3% contra o 4º Trimestre de 2009. Em termos anualizados, estamos falando em uma taxa entre 10% e 13%. Como dito anteriormente, esse ritmo não continuará nos próximos trimestres, ocorrendo uma leve acomodação – como antecipa a produção industrial. O mais provável é que o crescimento em 2010 fique entre 5% e 7%, caso nada de mais grave ocorra na Europa.

Saldo das Transações Correntes vs. IED


2010
06.01

Nos quatro primeiros meses de 2010 o crescimento do déficit em conta-corrente tem sido absorvido pelo crescimento robusto do Investimento Estrangeiro Direto (IED), na comparação com igual período do ano passado. Enquanto o primeiro cresceu 246%, o segundo experimentou um avanço de 354%. No ano, o saldo das transações correntes está negativo em US$ 16,7 bilhões, enquanto o IED acumula um saldo liquido de US$ 27,4 bilhões.

A relação entre um e outro, ao longo do tempo, é importante para termos idéia da capacidade de financiamento dos déficits em conta-corrente (o que igualmente se chama de uso de poupança externa). Com a absorção doméstica crescendo mais do que a oferta interna, a pressão sobre o saldo da balança comercial tende a continuar, o que agrava esse déficit. Ocorrendo uma piora no cenário externo, por uma deterioração das expectativas sobre a crise na Europa, é bem provovável que o IED sentirá o baque. Nesse cenário maléfico, o efeito câmbio pode vir a ser um limitador da recuperação da economia brasileira.

Um contrabalanceador desse movimento é a queda dos preços das commodities, já que a Europa é grande consumidora de nossos produtos básicos. Isto poderia ajudar a absorver a pressão inflacionária advinda da desvalorização cambial. Além disso, uma atuação enérgica do Banco Central, fazendo uso dos quase US$ 250 bilhões em reservas internacionais, pode sim neutralizar esse movimento negativo. A interação desses movimentos positivos com os negativos nos leva a sermos otimistas sobre a expectativa de crescimento do PIB para 2010 – que em termos anualizados deve fechar o primeiro trimestre em dois dígitos.

Tudo indica, porém, que a crise européia tenderá a continuar nos próximos meses. O mercado tem sido cada vez mais cético sobre o futuro da Grécia. São cada vez maiores as apostas em uma moratória grega, o que pode provocar um efeito dominó sobre os demais integrantes do grupo Piigs.

Por último, cabe ressaltar que em termos de política monetária, uma piora do cenário externo faz com que o Banco Central modere o aperto monetário. Acho, nesse sentido, pouco provável um aumento de 100 pontos-base na próxima semana. Isto porque, caso a crise piore, o aperto perde seu sentido. A opção deve ser, portanto, pelo gradualismo. Meu voto é em continuação dos 75 pontos-base.

A vez do Brasil?


2010
05.29

Nos últimos meses tenho lido nos principais cadernos de economia uma infinidade de matérias otimistas a respeito do crescimento econômico no Brasil. Esse sentimento positivo é baseado nos indicadores de produção industrial, desemprego, nível de ocupação, comércio varejista, crédito, rendimento médio e, claro, projeções sobre crescimento do PIB trimestral. Todos eles – sem exceção – dão conta que, de fato, estamos experimentando algo virtuoso: em termos anualizados, há corretoras que falam em crescimento de 11% no primeiro trimestre deste ano.

A taxa de desocupação com ajuste sazonal, medida pelo IBGE, atingiu 6,7% em abril. É o menor valor de toda a série, iniciada em 2002. Seguindo esse número positivo, a alta (real) no rendimento médio dos trabalhadores foi de 2,3% em relação a abril do ano passado. Já a ocupação da indústria está em 83%, número que faz relembrar os tempos pré-crise de 2008. As vendas no varejo seguem, naturalmente, os bons ventos: crescem a dois dígitos nos últimos três meses.

A reunião de crescimento do emprego, aumento do rendimento médio e também a aceleração do crédito a pessoa física responde pelo aumento contínuo do consumo das famílias. Nos últimos 26 trimestres (desde, portanto, o terceiro trimestre de 2003), o consumo das famílias só teve crescimento negativo (contra o trimestre imediatamente anterior) no quarto trimestre de 2008 – no auge da crise americana. Em todos os outros, o valor foi positivo. Não espanta, portanto, que a contribuição do consumo para o crescimento do PIB tenha sido de 3,17% em média nesse mesmo período.

E mesmo o resíduo dessa contribuição, o endividamento das famílias, não parece representar um risco – ao menos não no médio prazo. Isto porque, mesmo com o crescimento robusto das taxas de crédito, a inadimplência não parece esboçar sinais de preocupação. Ela tem se mantido estável durante a maior parte do período recente – salvo, claro, nos momentos de aumento da taxa de desemprego.

Sendo assim, seria a vez do Brasil? Estamos fadados a sermos a maior civilização dos trópicos, como queria Darcy Ribeiro? O eterno país do futuro, enfim, seria o país do presente? Vamos com calma nas afirmações.

O que o Brasil provou ao longo dessa última crise é que está, sim, mais preparado do ponto de vista macroeconômico. O tripé superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante se mostrou resistente ao estresse causado pela crise americana. Mas há de se ponderar algo: o contágio (via câmbio) só não foi maior porque o preço das commodities desabou no período de pico da crise. Não fosse isso, a desvalorização da taxa de câmbio teria tido efeito sobre a inflação, sustando a possibilidade de se fazer política monetária contracíclica. Isso, claro, teria tido um impacto muito mais perverso sobre a produção, o que contaminando as expectativas dos empresários, adiaria a retomada que se seguiu.

Há, não se deve negar, um misto de sorte e competência na retomada. O tripé estabelecido foi crucial para reduzirmos nossa vulnerabilidade externa sob dois pontos principais: a redução da dívida externa e recomposição da dívida interna, via redução de títulos atrelados a câmbio. Foi esse fato (pontual) que nos permitiu alcançar o status de investment grade, pelas três principais agências de rating internacional, poucos meses antes da quebra do Lehman Brothers. Sem isso, novamente, a retomada teria sido muito mais complicada (e demorada).

A conjuntura favorável não deve, porém, tapar nossos olhos frente aos nossos implacáveis problemas. Estudos não tão recentes assim dão conta de que os gargalos a um nível de crescimento econômico mais sustentado estão em uma péssima infra-estrutura, em um péssimo sistema de educação básica, em um ineficiente sistema judiciário, uma carga tributária alta e confusa e a ainda reduzida penetração brasileira no comércio externo. Nossos problemas estão muito menos nas dotações de fatores de produção, como gostam os teóricos do crescimento, e muito mais nas questões institucionais, propriamente ditas. Em outros termos: não há falta de capital, o que falta é melhorar o ambiente para que esse capital se combine aos demais fatores e consiga aumentar o nível de produção.

Dito isto, a seara de problemas sai da análise econômica estrita e cai no colo da política. A maior parte de nossos problemas depende de decisões políticas. Depende de votações importantes e cruciais no Congresso Nacional, depende de uma postura sóbria e estadista de nosso futuro presidente da República e, o mais crítico, depende de cada um de nós. Isto porque, no campo das instituições, as mudanças ocorrem nos dois sentidos: de cima para baixo e de baixo para cima. Os indivíduos também pressionam os legisladores a aprovar modificações. Se eles querem reduzir custos de transação, como a existência de um sistema judiciário caduco, devem pressionar os congressistas por alterações e reformas. Essa redução de custos tem impacto altamente positivo em termos de competitividade, o que aprofundaria a acumulação de capital e traria retornos em termos de bem-estar para toda a população brasileira.

Como se vê, leitor amigo, a vez pode até ser nossa, mas se não entendermos que somos agentes ativos (e não passivos) nessa transformação, continuaremos sendo o país do futuro. Continuaremos deitados em berço esplêndido, ao invés de nos tornarmos protagonistas no cenário internacional. A escolha por um dos dois cenários é, portanto, de toda a sociedade brasileira. E ela começa, não tenho dúvidas, nas eleições de outubro. É aguardar para ver se começaremos bem.

Desvalorização de moedas estrangeiras e envio de remessas de imigrantes


2010
05.25

Matéria do Valor de hoje dá conta da redução das remessas enviadas por imigrantes entre 2008 e 2009, provocada, segundo o jornal, sobretudo pela desvalorização das moedas dos países ricos.

Só a libra esterlina perdeu cerca de 25% do valor, se comparada a outras moedas. Em 2003, por exemplo, o câmbio (nominal) era de 5 reais para cada libra! Hoje, está abaixo dos 3 reais…

Essa desvalorização faz com que os imigrantes (que ficaram, já que muitos resolveram voltar) retenham moeda, aguardando algum movimento de apreciação da moeda estrangeira em relação ao real para então fazer o câmbio. Nos últimos anos, porém, salvo as crises de confiança (2002 e em poucos meses de 2008) a relação tem sido desfavorável. A economia brasileira tem convivido com uma tendência bastante apreciativa do real – fruto, em grande parte, dos juros domésticos bastante elevados.

No gráfico abaixo é possível verificar o impacto dessa redução de remessas no saldo das transferências unilaterais:

É preciso, entretanto, ponderar esse resultado. É óbvio que uma desvalorização leva imigrantes a reter mais moeda, aguardando um melhor momento para enviá-las para seus países de origem. Mas a redução das remessas está intimamente associada à perda de empregos e piora da situação econômica dos imigrantes. Essa é a causa principal da redução do envio de remessas. A desvalorização é apenas mais um fator, que aprofunda esse resultado. Tanto é assim que no período circulado em vermelho no gráfico acima, imediatamente posterior à quebra do Lehman Brothers, o dólar se apreciou frente a maior parte das moedas do mundo – dado que os investidores correram para os títulos do Tesouro americano, em uma “preferência pela liquidez”.

Mais um indicador da retomada: aumento das horas extras.


2010
05.25

Economia cresce a todo vapor…

“O forte ritmo de expansão da economia está forçando um grande número de empresas a estender as jornadas nas fábricas para reforçar a produção e dar conta das encomendas. Indústrias de diferentes setores estão pagando horas extras aos seus trabalhadores para atender à demanda. Na siderurgia, há fábricas em que os metalúrgicos têm feito jornada de 60 horas semanais, contra as 44 horas habituais, como mostra reportagem de Lino Rodrigues e Ronaldo D’Ercole, publicada no Globo desta terça-feira”.

Como, porém, ela irá se comportar frente ao aumento dos juros básicos? O segundo semestre não deve ter céu de brigadeiro…

Comportamento da Inflação (IPCA)


2010
04.27

No Valor de ontem foi publicada coluna com o sugestivo título “Inflação resistente pede juro maior”. A idéia central é a de que o aumento da inflação, ao contrário do que alega o governo, não é somente devido a fatores sazonais, devendo se manter nos próximos meses. Isso, por suposto, levaria a um aumento da taxa básica dos juros já na próxima quarta-feira (28). Como pode ser visto no gráfico abaixo, é nítido que temos tido um repique inflacionário nos últimos meses.

Esse aumento na margem se refletiu, naturalmente, no acumulado de 12 meses, como pode ser visto no gráfico que segue. Por essa análise, o IPCA acumula alta de 5,16%, fechando em março três meses acima da meta do Banco Central – que é de 4,5% há cinco anos.

O comportamento do IPCA tem sido contaminado tanto por fatores sazonais (reajustes de tarifas de ônibus, mensalidades dentre outros) quanto por choques de oferta (commodities, alimentos etc). A tendência, porém, indica que com o aquecimento da economia – mostrado no gráfico abaixo – a pressão inflacionária deva continuar nos próximos meses.

Por isto, o mercado dá como certo um aumento dos juros já a partir desta quarta-feira (28). A dúvida fica por conta da dimensão do aumento: se 50, 75 ou 100 pontos-base.

O contra-ponto dessa argumentação fica pela já tradicional coluna do ex-ministro Delfim Netto, no Valor de hoje (27). Ele questiona as expectativas por trás do boletim Focus, que seriam eminentemente financeiras, sem apoio, portanto, do lado real da economia. Além disso, volta a tecer comentários sobre o excessivo piso dos juros reais brasileiros – os maiores do mundo na atualidade e em grande parte do passado recente. Questiona a “ciência” por trás desse piso – que na academia é chamado de taxa de juros natural, variável não observável no mundo real, estimada apenas – e diz que seria essa a justificativa para elevarmos a Selic para 12 ou 13% ao cabo de 2010. Delfim deixa de tocar, porém, naqueles fatores citados no início do post: os motivos da aceleração da inflação nos últimos meses e o aquecimento da atividade.

Nota Fiscal eletrônica e inflação


2010
01.26

Em um almoço nessa semana com um grande amigo dos tempos de Telemar, foi abordado um tema no mínimo curioso, que me fez pensar por alguns instantes. Meu amigo trabalha atualmente em uma distribuidora de alimentos e está envolvido no processo de migração para a Nota Fiscal Eletrônica (NFe), um novo instrumento projetado pelo governo federal que visa simplificar a vida dos empresários brasileiros e reduzir a sonegação fiscal.

A questão relevante do almoço sobre esse assunto não foi propriamente a operacionalização do novo sistema, mas sim o impacto do mesmo na, veja você, inflação. Isso mesmo, o leitor não leu errado.

A questão toda é baseada em duas hipóteses: 1) a sonegação é alta no país; 2) o dinheiro sonegado não fica com o empresário, mas é repassado para os preços – reduzindo-os. Dependendo de quão forte forem essas duas hipóteses na economia brasileira e se a NFe conseguir de fato reduzir a sonegação fiscal, é factível imaginar que haverá repasse para os preços, o que acarretará um repique inflacionário.

A idéia é interessante e merece a atenção dos economistas de plantão…