Consumo, Investimento e Crescimento econômico

Nos últimos trinta trimestres o Consumo das Famílias só teve dois períodos de crescimento negativo na margem (contra o trimestre imediatamente anterior). A média de crescimento nesse tipo de comparação foi de 1,3% – o que anualizado chega a 5,3%. No último trimestre de 2010 esse número anualizado vem para provar a força desse componente da demanda: 10,4%. Os principais fatores que explicam tal crescimento são principalmente o aumento da massa salarial e do crédito. Além disso, não se pode deixar de citar o aumento real do salário mínimo e os programas de transferência de renda do governo, que possuem alta propensão ao consumo.

 

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No gráfico acima é possível verificar a contribuição dos componentes da demanda (FBKF, Consumo Final, Exportações e Importações) para o crescimento do PIB no período que vai de 2003 até 2010. Vale ressaltar que o componente Consumo agrega tanto o das Famílias, quanto o da Administração Pública. É nítido no gráfico que esse componente tem garantido o crescimento do PIB no ciclo que tem início no terceiro trimestre de 2003. Uma diferença interessante desse para os demais ciclos do Plano Real é que a Formação Bruta de Capital Fixo (os investimentos) reagiu ao aumento contínuo do Consumo, contribuindo de um lado para o próprio crescimento da demanda, quanto para a expansão da capacidade produtiva.

Os que acompanham a Conjuntura ao longo do Plano Real sabem que a expansão dos investimentos é uma das variáveis-chaves para entender a sustentabilidade do crescimento econômico. Isto porque, em todos os ciclos anteriores, ou esse crescimento foi abortado por um choque externo, ou pela escalada do processo inflacionário. Em ambos os casos o remédio amargo utilizado é a política monetária.

Um choque externo provoca fuga de capitais, o que desvaloriza a taxa de câmbio e provoca problemas de financiamento do balanço de pagamentos. Já a escalada da inflação é provocada sobremaneira pela maior ocupação da capacidade instalada, dado o crescimento dos componentes da demanda (notadamente o Consumo). No primeiro caso o Banco Central é obrigado a subir os juros para evitar a fuga de capitais e, portanto, os problemas de financiamento do balanço de pagamentos – assim como evitar uma maior desvalorização do câmbio, algo nefasto para os índices de preços domésticos. Já no segundo caso, a autoridade monetária busca adequar o crescimento da economia aquilo que nós chamamos como crescimento potencial, ou seja, tudo o que é possível crescer sem gerar inflação. Se esta se manifesta é porque o potencial está perto de ser atingido.

No ciclo atual os investimentos cresceram, tanto na margem quanto no acumulado em 12 meses, o que garantiu não apenas sustentabilidade ao crescimento, como abortou maiores necessidades de subida de juros. Além disso, o cenário internacional foi extremamente favorável, possibilitando ao país o acúmulo de reservas internacionais, o que gera maior proteção nos momentos de choques externos – os agentes sabem que o poder de reação do Banco Central é maior com US$ 300 bilhões em caixa do que com US$ 30 bilhões.

Nesse contexto, a grande questão no final de 2009 e início de 2010 era se os investimentos continuariam crescendo, aumentando a taxa de investimento em relação ao PIB e, portanto, aumentando o crescimento potencial da nossa economia. O que se vê hoje, março de 2011, é que os investimentos perderam fôlego ao longo do ano passado, tendo um crescimento na margem menor. Isso pode ser explicado pelos gargalos da economia brasileira – problemas de infra-estrutura, burocracia, dificuldade de acesso à crédito etc. Para que o crescimento seja sustentado não basta, portanto, que o governo gere incentivos ao consumo, mas que possibilite um aumento persistente da taxa de investimento.

Assim sendo, é falso o dilema entre incentivos de demanda e de oferta. É preciso sim que o Consumo das Famílias seja incentivado, mas é peremptório que os investimentos sejam facilitados. É muito simples nesse momento culpar o Banco Central por estar subindo os juros. O que não se vê, entretanto, é o clamor pelas reformas que poderiam facilitar o caminho dos investimentos.

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